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domingo, 22 de dezembro de 2013

Segundo fôlego

Parece que foi ontem o concerto de Anna Calvi no Lux, dada a intensidade e empenho vividos naquela sala. Na altura assegurei não perder de vista esta inglesa talentosa e rija e depois de novo fôlego registado em disco. Com «One Breath», Anna Calvi passou agora pela Aula Magna para mostrar as suas novas canções. A postura é a mesma e a intensidade da prestação também. Anna Calvi não é muito expansiva, poucas foram as vezes que comunicou com os presentes, mas a forma com que se entrega a cada canção impressiona. Quanto às canções, além de alguns momentos retirados do excelente debut álbum, as novidades mantêm vivo o entusiasmo em torno de Anna Calvi. A singer-songwriter não mudou muito desde aquela que foi uma verdadeira noite de luxo, no Lux. De salto alto, e muito bem produzida, Anna Calvi entregou-se de corpo e alma a cada música, revelando paixão e músculo interpretativos. Houve momentos mais quentes que outros, «Carry Me Over» e «Fire» (uma cover de Bruce Springsteen) foram muito provavelmente os grandes momentos da noite, mas todos os presentes vibraram e celebraram a música da londrina, que se viu obrigada a subir ao palco por duas vezes. Não foi tão especial como a estreia, no Lux, pois a Aula Magna é mais fria que a pequena cave da discoteca, mas Anna Calvi aqueceu, e de que maneira, a noite fria do passado dia 17 de dezembro.
 

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Dupla face

Este ano o Vodafone Mexefest mostrou-se irregular nas suas apostas e, por isso, não fosse uma oportunidade de última hora para entrar nos espetáculos marcados para o Coliseu dos Recreios, não teria “remexido” naquele que podemos já chamar o festival da Avenida da Liberdade. Pena não ter tido a oportunidade de conhecer John Grant ao vivo, mas a verdade é que a atração maior desta edição passava mesmo pelo palco do Coliseu e pela prestação de uma das maiores revelações de 2013, as Savages. Se em disco o post-punk de Jehnny Beth (voz), Gemma Thompson (guitarra), Ayse Hassan (baixo) e Fay Milton (bateria) impressiona e empolga, em palco a música e a postura desafiadora de Jehnny Beth constrói um desassossego miudinho impossível de contornar. Há, na verdade, algo de unapologetic na prestação destas quatro britânicas (ouçam-se, por exemplo, «Shut Up» e «Husbands»). Força que ganha ainda mais poder com a personagem musculada e quase perturbadora, numa mistura andrógina de Ian Curtis, com Brian Molko e Anna Calvi, de Jehnny Beth. O resultado é robusto e atraente, mas Jehnny Beth não deixa os créditos por mãos alheias e atira-se a cada canção como se fosse o momento da noite (recordo as prestações em «I Am Here», «Waiting For A Sign», «She Will» e «Fuckers»). Excelente concerto a promover um soberbo disco. «Silence Yourself» é uma das estrelas de 2013 e a passagem das Savages por Lisboa mostrou-o. Agora falta esperar por mais concertos desta nova coqueluche da música britânica.

A fechar a noite, Woodkid. Não conheço bem a história do francês Yoann Lemoine, a.k.a. Woodkid. No entanto, e com o concerto da passada semana, pude situá-lo entre a faceta mais bucólica de Patrick Wolf, as suaves texturas de Patrick Watson e a melancolia agridoce de Lana Del Rey (artista com quem Woodkid já trabalhou). Vislumbramos, também, um apurado interesse na singularidade de Antony Hegarty e no escapismo Tolkien. Portanto, os elementos parecem ser os certos, mas a música não me convence. A voz é limitada e cada novo momento é parecido com o anterior. Ainda assim, Yoann Lemoine deu um espetáculo digno de encerrar qualquer festival. Uma prestação entusiasmante que foi conseguindo captar a atenção dos muitos que se deixaram estar pelo Coliseu. Se no início era difícil ouvir o que vinha do palco (tanto era a conversa), no fim todos pulavam e seguiam o pequeno Woodkid, como se este fosse a next best thing que sucede às febres AWOLNATION e Imagine Dragons. Houve diversão q.b. e excelentes projeções de vídeo. Yoann Lemoine prometeu regressar a Lisboa e muitos foram os que nomearam o concerto como o melhor do Mexefest. Foi um bom momento, mas fica a sensação que Woodkid promete mais do que realmente nos dá.

sábado, 16 de novembro de 2013

Dança da melancolia

«Unlearned», o disco de covers editado este ano pelo singer-songwriter Scott Matthew, tem magia. Catorze canções que, segundo o próprio, definiram muito a sua forma de compor e interpretar música. De Bee Gees a Radiohead, passando por John Denver, Joy Division (soberba a versão de «Love Will Tear Us Appart»), Janis Ian, Neil Young, Charlie Chaplin (lindíssimo momento com «Smile», a canção festiva mais triste da história da música), Whitney Houston (o que dizer deste «I Wanna Dance With Somebody»?)... Temas de diferentes épocas e de diferentes universos, é certo, mas tudo muito bem pensado e redescoberto pela particular visão e singular forma interpretativa de Scott Matthew. Uma mistura perfeita de Antony Hegarty e Burt Bacharach. Música pop apresentada em modo crooner, de uma forma melancólica e alternativa à pop. Um piano, uma guitarra, uma voz singular e, esporadicamente, um violoncelo (participação especial de Carlos Tony Gomes), um ukelele e um acordeão (com Celina da Piedade). Dados que compuseram uma noite excecional, revelando um Pequeno Auditório do CCB mágico e Scott Matthew um mago perfeito. «Unlearned» foi o mote para o concerto do australiano. Mas, além das histórias editadas e contadas em disco, o cantautor não esqueceu Burt Bacharach («This Guy’s In Love With You»), nem os Sex Pistols («Anarchy In The UK»). Do seu reportório não ouvimos muito, mas «In The End», «Abandoned», «White Horse», «Friends And Foes», «The Wonder Of Falling In Love», «Little Bird» e «For Dick» fizeram as delícias dos fãs mais devotos. 2013 tem sido um ano com bons discos, mas não tão bons concertos. Scott Matthew passou pelo CCB e ofereceu-nos um concerto íntimo e muito especial.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Quebrar o silêncio

De volta aos concertos e aos posts. Em pouco mais de uma semana organizei uma visita ao Musicbox para sentir de perto o noise rock dos norte-americanos No Age e passei pelo Coliseu de Lisboa para o aguardado encontro com os britânicos Foals.

Do concerto dos No Age, marcado para as 2 da manhã - mas com início bem perto das 3 horas, devido ao que me pareceu um inexplicável entusiasmo em torno dos If Lucy Fell -, posso dizer que tudo aconteceu muito tarde. Dean Spunt (baterista e vocalista) e Randy Randall (guitarrista) apresentaram «An Object», o quarto e o mais introspetivo álbum do duo, e portaram-se muito bem. A maior parte do público que enchia o Musicbox saiu a correr com o fim da atuação dos If Lucy Fell (provavelmente saíram todos em direção em Braga para assistir à última prestação da banda). Ficaram poucos, mas a festa fez-se. Ao som de temas como «Teen Creeps», «C’mon, Stimmung», «No Ground» e «Eraser» chegámos bem perto das 4 horas de manhã. Foi um bom concerto, mas os No Age e quem foi ao Musicbox para os ver mereciam melhores horas.

Em relação aos Foals, banda que apresentava em Lisboa «Holy Fire», o concerto só veio reforçar a ideia que temos da sua música. Canções com corpo rock e alma indie que muito deram que falar com a edição de «Antidotes» (2008) e «Total Life Forever» (2010). «Holy Fire», o disco editado este ano, entregou-nos canções mais musculadas (ouçam-se, por exemplo, os singles «Inhaler» e «My Number»), mas nunca perde de vista os momentos mais “atmosféricos” e melodiosos dos britânicos. Em palco notámos todos esses aspetos da música dos Foals, mas algo faltou naquela noite de 29 de outubro. O alinhamento, com acelerações e travagens sucessivas, não foi o melhor e raros foram os momentos em que o público se mostrou realmente entusiasmado (recordo «My Number», «Red Socks Pugie» e, já no encore, «Inhaler»). Momentos mais serenos, com «Last Night», «Prelude» e «Spanish Sahara», também se destacaram, mas enquanto concerto a duração pareceu curta e muitas foram as pontas soltas.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Crystal Vibe

No que a espetáculos ao vivo diz respeito, 2013 começou com a eletrónica noise e os ritmos empolgantes dos Crystal Castles, na sala TMN ao vivo. Um concerto com casa cheia que aqueceu, e de que maneira, quem acorreu ao chamamento de Alice Glass e Ethan Kath. O duo apresentava «(III)», o seu terceiro álbum de originais, editado em 2012, mas o disco mais revisitado acabou por ser «Crystal Castles», de 2010. «Baptism», «Celestica», «Not In Love» (que falta fez Robert Smith) e «Intimate» fizeram as delícias dos presentes. No entanto, foi ao som de «Crimewave», o tema que juntou os Crystal Castles aos norte-americanos HEALTH, que a loucura se generalizou. Seguiram-se outros momentos frenéticos, como são exemplo «Doe Deer», «Alice Practice», «Sad Eyes» e «Yes No», e a desordem sonora transbordou para a plateia. Há muito que não assistia a um concerto como o que os Crystal Castles nos ofereceram na passada semana, com o extra crowd surfing incluído. Por vezes sentimos que tudo é feito e processado via just push play, mas o resultado é compensador, e nem a frieza da sala TMN ao vivo beliscou o calor e o entusiasmo criados em torno da prestação da banda. Surpreendente receção e ambiente excitante. Bem-vindo 2013.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Friday night fever

Foi com «Backseat Freestyle», uma das canções mais fortes de 2012 e de «good kid, m.A.A.d city», o trabalho do rapper norte-americano Kendrick Lamar, que Adam Bainbridge, o homem que se esconde por detrás das sonoridades Kindness, decidiu incendiar o público que se apresentou na passada sexta-feira no Lux. A música Kindness não necessita de elementos extra para aquecer o quer que seja, mas ficou claro que Adam Bainbridge faz tudo para promover a sua música, como, também, os nomes que o influenciam na hora de escrever canções e criar ambientes  (directamente do seu i-pod ouviram-se Kendrick Lamar e Beyoncé). Composições orgânicas, com queda para o disco sound, sem nunca tirar os olhos do funk, da pop contemporânea e da música electrónica, com etiqueta IDM. Podemos tanto avistar as desafiantes sombras Arthur Russel, como as multifacetadas cadências Toro Y Moi, as produções Devonté «Blood Orange» Hynes, ou, mesmo, as misturas extravagantes Neon Indian. No entanto, «World, You Need A Change Of Mind», o álbum de estreia do projecto Kindness, vive da melancolia. Se em disco o francês Philippe Zdar, dos Cassius, ajudou no temperamento desses ambientes suaves e lânguidos, em palco as coisas atingem novos patamares e a melancolia parece diluída na festa musical Kindness. Foi num tom de festa de sexta-feira à noite e com o sempre apetecível espírito de banda, que Adam Bainbridge e restantes músicos nos apresentaram as suas canções melancólicas, mas dançantes. Por mais que uma vez vimos Adam Bainbridge juntar-se ao público para dançar e incentivar os presentes. Esta foi uma das minhas melhores noites de concerto de 2012.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

Com um brilhozinho nos olhos...

I must admit / I can't explain / Any of these thoughts racing / Through my brain / It's true / Baby I'm howlin' for you”. Foram estas as palavras escolhidas pelos The Black Keys para abrir o concerto no Pavilhão Atlântico. O público, que encheu a plateia, uivava pela estreia da banda de Akron, Ohio. Dan Auerbach assumia o papel de salvador do blues-rock. Porém, alguém esqueceu-se de ligar o microfone. Ouviram-se assobios e os “Nana Nana Na, Nana Nana Na” dos coros, mas Dan Auerbach não parou: “There's something wrong / With this plot / The actors here / Have not got / A clue / Baby I'm howlin' for you (...) Nana Nana Na, Nana Nana Na / Nana Nana Na, Nana Nana Na...” Ainda antes do lânguido e poderoso riff de «Next Girl», trocou-se de microfone e as coisas pareciam ter encarrilhado. No entanto, houve sempre uma sensação de desconforto quanto ao som e ao espaço. A música da dupla é grande e incendiária, mas as suas canções pedem proximidade. Factor que nunca existiu na noite da passada terça-feira. Ainda assim, os The Black Keys revelaram mestria na hora de rock n’ rollar. Apresentaram-nos algumas das melhores malhas rock dos últimos anos («Tighten Up» e «Lonely Boy» são magníficas), recuperaram os tempos mais ásperos e de garagem, com «Thickfreakness», «Girl Is On My Mind» e «Your Touch», mostraram estar no auge da sua popularidade com novos sucessos (impressionante o feedback do público a temas como «Little Black Submarines», «Dead And Gone» e «Gold On The Ceiling») e ainda tiveram tempo para inflamar o ambiente com promessas de regresso. Houve espaço para um único encore, composto pelo falsete irresistível de «Everlasting Light» e o portentoso «I Got Mine». Os norte-americanos, que davam o primeiro concerto de uma digressão europeia com treze actos, cumpriram, mas não deslumbraram. Por isso, é com um brilhozinho nos olhos que continuarei à espera de ver Dan Auerbach e Patrick Carney num outro espaço da cidade, com outras condições.





terça-feira, 6 de novembro de 2012

The Walkmen de volta a Lisboa


Não aprecio o espaço TMN ao Vivo. A sala é incaracterística e é habitual vermos o público dispersar-se do palco para beber um copo e pôr a conversa em dia com aquele amigo(a) que se encontra só em concertos. Ultimamente esta prática até é habitual em qualquer sala lisboeta, mas no TMN ao Vivo o local é propício a isso. Porém, com os norte-americanos The Walkmen foi diferente. A banda cedo captou a atenção («Line By Line», «The Love You Love» e «Heartbreaker», temas do mais recente disco «Heaven», assim o obrigaram na abertura do concerto), desfilando energia e magia no malfadado palco do TMN ao Vivo. O som, regularmente mau para aquela sala, esteve no ponto certo (há sempre uma primeira vez). O público deixou a conversa para o fim e, assim, pudemos desfrutar de algumas das melhores canções da discografia dos The Walkmen. Das composições mais serenas como são «Line By Line», «Woe Is Me» e «I Lost You», passando pelas suas canções mais conhecidas (julgo já ser impossível para a banda não apresentar «The Rat» e «In The New Year»), algumas preferências pessoais («All Hands And The Cook» e «We Can’t Be Beat») e acabando nos temas de balanço e matriz The Walkmen como são «On The Water», «Blue As Your Blood», «Dónde Está La Playa», «Heaven» «Everyone Who Pretend To Like Me Is Gone» e «Another One Goes By» (original dos Mazarin e uma verdadeira pérola incluída em «A Hundred Miles Off», de 2006). Enfim, este foi mais um excelente concerto de um grupo excepcional de músicos, facto que fica evidenciado ainda mais no formato live. Foi preciso ver os The Walkmen no TMN ao Vivo para mudar a opinião quanto àquele espaço. Abençoada banda! Louvadas canções!

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Ghost Rider

George Lewis Jr. regressou a Lisboa para apresentar «Confess», o último álbum do seu projecto de canções Twin Shadow. O disco tem saciado o apetite pop por estes lados, com irresistíveis ambientes de tempero eighties e referências new wave Vs. synthpop Vs. post-rock. Composições que piscam o olho à power pop, mantendo a alma indie do álbum de estreia «Forget», de 2010. Uma evolução proveitosa que me levou ao MusicBox para rever a versão live de Twin Shadow e desfrutar das novas canções ao vivo (pena a ausência de «Mirror In The Dark» e «Changes»). No entanto, e depois de feita a festa, a sensação que fica é muito idêntica à de Maio de 2011, aquando da passagem do projecto pela cave da discoteca Lux. Apesar da fórmula eficaz com que George Lewis Jr. cria o mundo Twin Shadow, o facto é que esses episódios parecem perder força em palco. A banda revela (ainda) alguma falta de “estrada” e/ou ordem, o excelente compositor expõe fraquezas na hora de cantar e o espírito party rock peca por excessivo. Twin Shadow parece adoptar uma postura excessivamente despreocupada e ociosa. O resultado é cool, mas a música fica uns pontos abaixo do estado registado em disco. Notou-se, assim, e pela segunda vez, que o segredo da atracção Twin Shadow mora no estúdio e no trabalho de laboratório de produção. Quanto ao formato live, o produto final é despretensioso, cool e cheio de energia, mas por que não adicionar-lhe uma pitada de sobriedade?

sábado, 27 de outubro de 2012

“Foi tão bom para ti como foi para mim”



Já no terceiro e último encore, e num tom quase de desafio, Manel Cruz exalta “Deus nos guie para a luz / porque eu não creio ser capaz / qual de nós vai ter uma missão / tu tens a vida que eu quis ter / eu, eu não / pára-me agora”. Os Ornatos Violeta consumavam o primeiro de três concertos no Coliseu dos Recreios (aos que se seguem outros tantos a realizar no Coliseu do Porto) e faziam-no de uma forma íntima e extraordinariamente natural. Custa acreditar que esta banda, causa do maior caso de culto na música portuguesa, esteja separada dos palcos e dos discos desde 2001. No entanto, e apesar do hiato de mais de dez anos, a música dos Ornatos Violeta nunca nos deixou e isso ficou bem patente no palco do Coliseu de Lisboa. Testemunhou-se o sentido de comunidade e culto em torno da banda do Porto e das suas canções. Foi «Tempo de Nascer» a celebração, do público e da própria banda, da comunhão que vinha sendo alimentada, pela ausência, desde o início do fim dos Ornatos Violeta. O sentimento era geral e “foi tão bom” ver e ouvir todo o Coliseu a entoar “dá-me a tua mão e vamos ser alguém a vida é feita para nós!”. Raros foram os momentos, vividos naquele mesmo palco, em que o público e a banda se mostraram e colocaram no mesmo estado e comprimento de onda. Ambas as partes desfrutaram ao máximo o reencontro com «Cão!» e «O Monstro Precisa de Amigos», havendo, também, espaço para inéditos e raridades (extras à própria colectânea «Inéditos / Raridades», de 2011). Uns riram e outros emocionaram-se, mas “foi uma noite do caralho”, voltar atrás e reencontrar «Mata-me Outra Vez», «Chaga», «Coisas», «Bigamia», «Nuvem», «Ouvi Dizer», «Capitão Romance», «O.M.E.M.», «Punk Moda Funk» e «Tempo de Nascer». Lá pelo meio a banda ainda aceitou o pedido dum “tipo com tomates” para subir ao palco e tocar com a banda «Deixa Morrer», tema dedicado à Beatriz. “São só coisas”, mas “foi tão bom” ver o emocionante reencontro com os Ornatos Violeta. “O amor é isto e nada mais!



sexta-feira, 12 de outubro de 2012

À velocidade Maxïmo Park


Os Maxïmo Park mereciam um pouco mais. A banda de Newcastle, nomeada para o Mercury Prize de 2005 com o excelente «A Certain Trigger», regressou este ano aos discos e à estrada e Lisboa foi o ponto de partida para mais uma digressão europeia. «The National Health», o quarto álbum de originais dos ingleses, foi o mote para o concerto e, apesar das análises positivas ao disco, o recinto TMN ao vivo apresentou-se com imensos espaços vazios. Nada que impedisse o vocalista Paul Smith de personificar em palco o rock saudável e vigoroso dos Maxïmo Park. Na verdade, não notamos grandes mudanças desde 2007, altura em que nos visitaram para a edição do Super Bock Super Rock. O peso de «A Certain Trigger» (2005) e «Our Earthly Pleasures» (2007) é por demais evidente e, apesar de «The National Health» nos oferecer temas bem simpáticos («Hips And Lips» é um belo single), o pouco público presente reagiu sempre melhor às composições que marcaram o início de carreira dos Maxïmo Park. Canções brit-pop-brit-rock que tanto piscam o olho à leveza The Smiths como à sacarose Pulp, ao pop ‘n’ roll Franz Ferdinand e excessos Kaiser Chiefs. Todavia, foi bom voltar atrás e ver Paul Smith e restantes músicos a interpretar «Apply Some Pressure», «Our Velocity» (tema que encerrou o concerto), «Limassol», «Graffiti», «Books From Boxes», «The Coast Is Always Changing», «By The Monument» e «Going Missing». Os Maxïmo Park estão de regresso e precisam e merecem melhor atenção.

sábado, 28 de julho de 2012

Lisbon, Oh...


Já no encore, Justin Vernon pede a ajuda do público para entoar «What might have been lost» e, assim, emoldurar «The Wolves (Act I AndII)». Seguiu-se, para fechar a noite, «For Emma» e nós, dominados pela demanda do desassossego dos Bon Iver, sentimos que Justin Vernon e os restantes oito elementos em palco nos dedicavam antes um For Lisbon. Não que a cidade reclamasse mais essa invocação (recorde-se «Lisbon, Oh», do último trabalho «Bon Iver»), mas aquele encontro no Coliseu merecia uma despedida própria. Naquele momento, depois de nos termos perdido pelas invernosas composições de «For Emma, Forever Ago» e aproximado ainda mais das visões paisagistas e contemplativas de «Blood Banks» e «Bon Iver», era o que fazia sentido. Justin Vernon, cumprindo com o ritual, anunciava o seu fascínio pela cidade de Lisboa e carinho pela sala (esgotada há mais de três meses) que o acolhia de braços abertos. Já a banda, quase uma Justin Vernon Band, ou seja, uma versão mais indie e mais folk da Dave Matthews Band, apresentou as canções de Justin Vernon em versões mais rock. O que ninguém estranhou, nem mesmo as canções, pois o percurso sonoro dos Bon Iver já o antevia. Contudo, momentos houve em que a singularidade da música e da voz de Justin Vernon nos levou ao mesmo lugar onde já havíamos descoberto «Flume», «Skinny Love», «re: stacks» e «For Emma». For Lisbon, forever ago…

quinta-feira, 26 de julho de 2012

Savage night @ Musicbox


Os canadianos Destroyer, banda que edita álbuns desde 1996, passaram recentemente pelo Musicbox e a sala mais acolhedora de Lisboa encheu para os ver, naquela que terá sido a noite mais quente de Julho. É certo que a maior fatia do público presente respondeu ao chamamento devido a «Kaputt», o último e extraordinário álbum da banda e, na minha opinião, o melhor disco de 2011. Pop sofisticada, canções polidas e melodias lustrosas que fazem de «Kaputt» um momento brilhante da pop recente. Daniel Bejar, o crooner errante que em palco demonstra o seu gosto pela palavra (e também por Baco…), e os restantes sete elementos que subiram ao pequeno palco do Musicbox recriaram na perfeição toda a beleza de «Kaputt». Portanto, foi com alguma naturalidade que a cumplicidade se tenha notado mais viva em momentos como «Savage Night At The Opera», «Kaputt», «Suicide Demo For Kara Walker» (momento da noite?), «Blue Eyes», «Chinatown» e «Downtown». Porém, os registos mais antigos desta banda de Vancouver não ficaram esquecidos e, por isso, outros discos, outras canções e outras preciosidades foram recordados. Do deleite de «Your Eyes», a abrir o concerto, à pop The Beatles meets David Bowie de «European Oils», passando pela rapsódia «Rubies», a boémia «Libby’s First Sunrise» e terminando na orquestra shoegaze de «Hey, Snow White», já no encore. Temas que não se esconderam à sombra de «Kaputt», fazendo da actuação dos Destroyer mais uma noite bravia no Musicbox.

terça-feira, 24 de julho de 2012

Optimus Alive '12: Dia 3

O derradeiro dia da edição 2012 do festival Optimus Alive, o mais forte do cartaz, foi mesmo o mais concorrido. Jornada destinada, também, aos fenómenos, com os Radiohead a mostrarem-se como o principal factor desestabilizador. As T-shirts alusivas à causa e os "Radiohead freaks" eram mais que muitos.
Foi com a power soul do norte-americano Eli “Paperboy” Reed, uma mistura de James Brown com o swing de Mayer Hawthorne, que a música começou. Interessante prestação e uma voz que não esqueceremos tão facilmente. O Sr. abusou dos Yeahs, mas a festa estava montava. Por isso, dou um salto ao espaço Clubbing para abraçar um pouco da pop, com temperos electrónicos e melodias sedutoras, do duo Best Youth. No entanto, os PAUS já chamavam pelo público e, aproveitei, para conferir a versão live do excelente single «Deixa-me Ser». Não cativaram muito, confesso, e acabo por regressar ao palco Heineken para assistir à calorosa prestação das norte-americanas Warpaint. Banda que continua a apresentar o álbum de estreia «The Fool» e a apoiar-se em êxitos como «Stars», «Bees», «Elephants», «Composure» e, claro, «Undertow». Canções com ADN indie e texturas dream pop. Melodias irresistíveis que funcionaram muito bem e, não fosse o feedback irromper por duas ou três vezes, o concerto teria sido perfeito. The Maccabees foi a banda que se seguiu e o espaço Heineken encheu para ver o grupo londrino apresentar o mais recente álbum «Given To The Wild». Não conheço a carreira destes The Maccabees, mas a sua prestação no Optimus Alive já me fez correr o Youtube em busca das suas canções. Porém, nova pesquisa levou-me também ao palco principal para ver algumas das composições camaleónicas de Dan Snaith, a.k.a. Caribou. Canções elegantes e para headphones que não encaixaram muito bem no palco Optimus. Quanto aos Mazzy Star, e do que deu para ver, pois havíamos que assegurar o lugar para o concerto dos Radiohead, vislumbrou-se a negra melancolia que tanto me marcou nos anos 90. O concerto foi sombrio e Hope Sandoval assumiu a habitual postura blasé, a imagem de marca dos Mazzy Star. Não se criou empatia com o público e por isso, comenta-se, o espaço foi ficando cada vez mais desocupado.
À hora marcada, os Radiohead subiram ao palco principal para tocar «Bloom», o tema que abre também o último registo «The King Of Limbs». Álbum de 2011 que a banda ainda anda a promover e que passou quase todo pelo Optimus Alive (só «Little By Little» e «Codex» decidiram não aparecer). Ouviu-se, também, grande parte de «In Rainbows», o trabalho de 2007, e para compor o acontecimento recuperaram-se alguns dos melhores momentos de «Hail To The Thief», «The Bends», «Kid A», «Amnesiac» e, evidentemente, «OK Computer». Thom Yorke dançou, saltou e até desafinou (em «Climbing Up The Walls» fez tudo para estragar o momento), mas este era um concerto ganho. Bastava aos Radiohead subirem ao palco para o público rejubilar. Portanto, se adicionarmos a esta equação canções como «Pyramid Song», «Exit Music (For A Film)», «There There», «Nude», «Lucky», «Idioteque», «Paranoid Android», «Street Spirit (Fade Out)», «I Might Be Wrong», «Lotus Flower» e «Reckoner», o resultado será a exaltação de uma das maiores entidades criativas da pop. O desfile durou cerca de duas horas, com dois encores incluídos, encerrando ao som de «Street Spirit (Fade Out)». A adrenalina atingia, por esta altura, os seus píncaros.
Dirijo-me para o espaço Heineken, onde os SBTRKT estavam a dar o seu melhor, com «Hold On». Foi pena a prestação do londrino Aaron Jerome estar a entrar nos seus derradeiros momentos, mas o que se passou no palco obriga-me a marcar presença numa próxima visita a Lisboa do projecto SBTRKT. Canções de laboratório que soam muito bem ao vivo. Portanto, Aaron Jerome convence, também, no formato live. Quem não precisava de me convencer era a dupla The Kills. Há anos que esperava pelo momento de os ver em palco e essa sede foi finalmente saciada. Alison “VV” Mosshart e Jamie “Hotel” Hince começaram por anunciar “This ain’t no wow now / … / This ain’t no wow no more”, mas a cumplicidade entre ambos os protagonistas apaixonou-nos e o single «Future Starts Slow» logo repôs os níveis de adrenalina. O público respondeu ao desafio e foi um gozo tremendo ouvir temas como «Kissy Kissy», «Satellite», «Tape Song», «Baby Says», «Last Day Of Magic» e, claro, «Fuck The People». Lá pelo meio, e aquando de «The Last Goodbye», Alison interrompeu tudo para pedir assistência a alguém que sucumbia na plateia.
Ultrapassada a contrariedade seguiram-se «Pots And Pans» e os portentosos «Fuck The People» e «Monkey 23». I say that this deserves a fuckin’ wow!!! Entretanto, a festa dos Metronomy estava prestes a começar e, apesar de já passarem das três da manhã, o fim do festival ainda estava longe. Música electrónica com pinta de pinga amor que nos deixa a menear o corpo continuamente. Foi o encerramento perfeito ao som de «The Bay», «Corinne», «She Wants», «Heartbreaker», «Everything Goes My Way» «Radio Ladio» e «The Look». Não sei o que sentem, mas há muito tempo que eu não saía tão cheio de um dia de festival.

sábado, 21 de julho de 2012

Optimus Alive '12: Dia 2

Dia marcado pelos inúmeros sósias de Robert Smith, pela ausência já anunciada de Florence + The Machine e consequente entrada em cena dos amigos de longa data Morcheeba. Contudo, a maratona de concertos começou com a irlandesa Lisa Hannigan. Cantora e compositora que iniciou a sua carreira ao lado de Damien Rice (alguém se recorda da voz feminina que surge em «The Blower’s Daughter» e «9 Crimes»?; e do tema «Silent Night» que encerra o álbum «O»?). O que se ouviu em palco resulta da mistura da sentimentalidade Damien Rice com o éter Holly Miranda e a formalidade Amanda Palmer. Fruto que curiosamente mostrou ter alguns admiradores. A própria Lisa Hannigan mostrou-se surpreendida com a recepção. Mas, do que ouvimos, o nosso afecto até foi merecido. Seguiu-se a dupla Big Deal. Ele (Kacey Underwood) e ela (Alice Costelloe) apresentaram a sua dream pop com rótulo retro, mas o concerto foi anémico e passou-se sem qualquer efervescência. Já os Here We Go Magic, banda de Brooklyn que este ano já nos presenteou com o álbum «A Different Ship», deram conta do recado. Canções com texturas mais ornadas e um sentido de espectáculo ao vivo que tanta falta fizeram aos Big Deal. Simpática prestação que nos fez acreditar numa segunda oportunidade, agora para actuar num recinto mais acolhedor, como o Musicbox.
Sem tempo a perder, os The Antlers sobem ao palco para afinar os últimos pormenores e, sem qualquer pré-aviso, dão início ao seu segundo concerto em Lisboa no espaço de oito meses. A banda de Brooklyn continua a promover o último álbum «Burst Apart», do qual ouvimos temas como «I Don’t Want Love» e «No Widows», e Peter Silberman continua a abusar dos falsetes. Porém, e no seguimento da edição dos recentes EP «(Together)» e «Undersea», pudemos ainda aferir à face mais experimental destes norte-americanos. Não deslumbraram, até porque a música dos The Antlers vive melhor ao frio e na falta de luz do que ao calor que se fazia sentir no Passeio Marítimo de Algés, mas a prestação (a que vi) foi positiva. Sigo, então, para o palco Optimus e dou de caras com outro dos fenómenos dos anos 00, os britânicos Mumford & Sons. Confesso o meu desconhecimento da música destes londrinos, mas o espirito vivido é idêntico ao que se vê em alguns dos Irish Pubs do Cais do Sodré. A diferença residiu no número de assistentes… Quanto aos Morcheeba, detectámos algum nervosismo de Skye Edwards, aquando das primeiras palavras dirigidas ao público. Lamentou-se a ausência de Florence Welch, mas a banda de «Rome Wasn't Built In A Day» não deixou os seus créditos por mãos alheias. Com uma mão cheia de excelentes canções, com o selo de qualidade do trip-hop, os Morcheeba apresentaram-se iguais a si mesmos, ou seja, em forma, mas sem grandes euforias. Decorridos cerca de trinta minutos, durante os quais pude namorar novamente «Otherwise», passo pelo palco Clubbing para apurar o estado da arte dos Art Department (podiam ao menos disfarçar o “just push play”).
Corro para Tricky e o palco Heineken está ao rubro, com o que parece ser um encontro imediato de Tricky Kid com o heavy metal dos Motörhead e algum do público que marcava presença na área. Rebel nineties are back, baby! «Ace Of Spades» soube mesmo bem e a aparente rebeldia / anarquia que se viveu em palco transportou-me para outros tempos e outros quotidianos. A prestação de Tricky não mais atingiu a mesma adrenalina, mas do que se viu e ouviu, o regresso do britânico a Portugal foi bem sucedido. Foi ainda com Tricky em palco que Robert Smith e os seus The Cure me levaram ao palco Optimus. Estão velhinhos, é certo, mas as suas canções permanecem actuais. «Pictures Of You», «Lullaby», «End Of The World», «Lovesong» e «In Between Days» foram algumas das canções que passaram pelo Optimus Alive. É pena que os temas de «Bloodflowers», o subavaliado álbum de 2000, continuem a ser ignorados e «Burn» teimar em esconder-se das multidões. Foi já ao som de «Just Like Heaven», que segui para as concorridas eleições de SebastiAn.
O conceito da sua «Primary Tour» baseia-se na eleição do candidato SebastiAn à governação mundial, ao seu declínio e posterior destruição. Excelente desempenho, que convenceu o eleitorado através de imagens e mensagens de apoio à causa. E nem foram necessários discursos, pois a retórica deste SebastiAn está toda na sua arte “remisturadora”. Terminada a actuação ainda ouvimos ao longe os The Cure, com «Boys Don’t Cry» (impressionante, não?), mas por esta altura o destino já estava traçado e o descanso chamava por mim.

sexta-feira, 20 de julho de 2012

Optimus Alive '12: Dia 1

As expectativas eram altas. Os Radiohead regressavam a Portugal dez anos depois da última visita, na altura para promover «Hail To The Thief»; os The Cure prometiam uma maratona de êxitos e estórias temperadas com a new wave dos eighties; os Mazzy Star quebravam o silêncio que durou mais de uma década, durante os quais Hope Sandoval partilhou o palco e as suas canções com os The Warm Inventions; os The Stone Roses regressavam também aos grandes palcos para ganhar umas coroas; os The Kills estreavam-se em palcos da capital; os franceses Justice e Sebastian prometiam festa até ao amanhecer; e nomes como Santigold, Metronomy, Tricky, Caribou, SBTRKT e The Antlers ofereciam muita e boa música para animar quem quisesse passar um bom bocado. No entanto, e como é habitual nestas ocasiões, a correria entre palcos e entre universos cancioneiros foram uma constante. Não deu para ver tudo o que se desejava, principalmente na derradeira noite do festival, mas deu para assistir a belos momentos em palco.

Efectuado o reconhecimento ao recinto e explorado o ambiente criado pelos Aeroplane no palco Clubbing, fixo-me no palco Heineken para dar as boas vindas às Dum Dum Girls. Iguais a si mesmas, a banda norte-americana deu voz à pop solarenga de tempero retro que percorre os seus discos. Concerto competente, mas morno para um final de tarde quente. Seguiu-se a Miúda de que todos falam e o factor histeria, sem fundamento, deu os seus primeiros sinais de vida. Com uma atitude de “miúda” que tenta seguir a moda e a boleia do hype Lana Del Rey, Mel, Pedro Puppe e Tiago Bettencourt deram cara ao hit de verão «Com Quem Eu Quero». O público gostou, mas a sensação de desequilíbrio ficou patente. Desequilíbrio que continuou com os LMFAO. Ainda hoje estou para tentar perceber o fenómeno. O concerto foi uma verdadeira festa, com zebras e palmeiras insufláveis, bolas de praia e confettis aos molhos, leggings e sungas, danças paródicas e uma quantidade imensa de música descartável. Porém, o histerismo aliado à velocidade com que os acontecimentos se iam desenrolando em palco animou, e muito, o espaço Heineken. Ultrapassada a histeria metade do público saiu em debandada. Melhor ficámos para receber de braços abertos a pop travestida de Santi White, a.k.a. Santigold.

A norte-americana regressava a Lisboa, depois da actuação no Super Bock em Stock de 2008, para mostrar o mais recente e excelente «Master of My Make-Believe». Apesar de este ano ter trazido consigo uma banda suporte, relembro que na estreia a música era dada por um DJ, o espectáculo Santigold continua muito parecido ao de 2008, no Teatro Tivoli. Canções pop que continuam a inspirar-se no melhor que se vai ouvindo por aí: se «Go», um dos singles de «Master of My Make-Believe» e o tema que abriu o concerto, percorre os caminhos (des)torcidos do punk, «Disparate Youth», outro single, encontra no reggae a sua maior força e «Big Mouth», tema que fechou a actuação, descobre o kuduro dos nossos Buraka Som Sistema. Ainda assim, parece que a retraída prestação de Santi White corta um pouco o entusiasmo que o próprio espectáculo propõe. Julgo que com uma atitude mais expansiva o concerto de Santigold atingiria novos e melhores patamares. Porém, são as canções que aqui fazem a diferença e essas ofereceram-nos um excelente espectáculo. Seguimos, depois, para o palco Optimus para ver uns The Stone Roses, indolentes e enferrujados, a expedir clássicos para uma multidão. Passámos, então, pelo palco Clubbing para sondar o DJing de Miss Kittin. Seguiram-se os franceses Justice e apesar do excelente início, o último álbum «Audio, Video, Disco» cedo nos cortou a elevação criada. O palco pareceu grande demais para a ocasião e, por isso, acabamos a noite ao som da norte-americana Zola Jesus. Pop industrial, meio gótica, meio experimental, que tanto pisca o olho à música clássica, com a sua voz operática, como se atira de corpo e alma à electrónica mais negra (dark wave). Do pouco que se viu e ouviu, descortinámos a tal energia que faltou a Santi White e ouvimos boas canções pop. Óptimo momento que encerrou o meu primeiro dia do Optimus Alive 2012.

sábado, 21 de abril de 2012

Satisfação Natural



«awE naturalE», o álbum de estreia da dupla de Seattle THEESatisfaction, é o anunciado “disco do ano” mais recente e preferido de todos. Funk psicadélico construído em torno de manifestações hip hop e espírito soul music. Produto pop que percorre alguns dos trilhos explorados e polidos pelos amigos de rua/estúdio Shabazz Palaces, mantendo vivas as ligações com a história da música negra norte-americana. Stasia Irons e Catherine Harris-White fazem mesmo notar que «Thriller», de Michael Jackson, é a razão pela qual hoje fazem música. Percebemos logo de onde surgem as danças sincronizadas e as manifestações R&B que passaram pelo palco da Galeria Zé dos Bois no passado dia 17 de Abril. Elementos aos quais foram adicionadas cadências e agitações tribais, hip hop feminista, black jazz e um raro sentido de melodia rítmica e vocal. Descortinámos, aqui e ali, a neo-soul de Ursula Rucker, mas, também, a de Janelle Monáe e Erykah Badu. Já os “ambientasons”, esses, são alimentados por texturas sombrias e urbanas (já falei nos Shabazz Palaces, certo? Então, não nos esqueçamos dos extintos cLOUDDEAD e, também, de Flying Lotus e Gonjasufi). Quanto ao concerto, o conceito é muito parecido com a faceta live dos “padrinhos” Shabazz Palaces, sendo que no caso das THEESatisfaction a instrumentação provem toda da técnica “just push play”. Portanto, foi num palco desprovido de qualquer instrumento musical e com apenas dois microfones à vista que a estreia do duo norte-americano decorreu. E mais, correu tudo muito bem. A atitude cativou, o calor da sala empolgou e as canções entusiasmaram todos os que acorreram ao chamamento das THEESatisfaction.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

A Sagração da Primavera de David Fonseca


Depois de editar o menor «Between Waves», David Fonseca pensou em fazer algo diferente. O resultado é o díptico «Seasons», composto pelos volumes «Rising» (editado no passado dia 21 de Março) e «Falling» (que irá ver a luz do dia só a 21 de Setembro). Projecto ambicioso do singer-songwriter leiriense que pretende mostrar, numa perspectiva cronológica, pequenos episódios do seu dia-a-dia durante as várias estações de 2012. Atenção: «Seasons» não é um álbum conceptual e ainda estamos para perceber como irá resultar enquanto duplo-álbum. No entanto, posso adiantar que «Rising», o seu primeiro capítulo, já fez esquecer o antecessor «Between Waves», revelando uma nova e excelente colecção de canções pop compostas por um David Fonseca que parece viver um dos momentos mais criativos da sua carreira. É reconhecível a repetição de fórmulas e de arranjos na música do compositor (ouçam-se, por exemplo «Every Time We Kiss», «It Feels Like Something» e «Heavy Heart»), mas é, igualmente, difícil passar ao lado de canções como «Under The Willow», «We’re So Much Better Than This», «Armageddon» e, claro, «What Life Is For» e «I Would Have Gone And Loved You Anyway». Incorporam-se novas influências (por exemplo, The Killers e M83 em «What Life Is For»), sem nunca esquecer o que de melhor há no passado («The Beating Of The Drums» é mais um momento The Beatles). Canções que passaram pelo palco do TMN Ao Vivo no passado dia 3 de Abril e acabaram por superar os velhos êxitos de David Fonseca (de «Superstars» a «Stop 4 A Minute», passando por «Kiss Me, Oh Kiss Me», «A Cry 4 Love» ou mesmo «The 80’s»). Lá pelo meio, ainda fomos brindados pela sequência «I See The World Through You» e «Who Are U?». A sala esgotou para assistir ao novo espectáculo de David Fonseca e o cantautor não desiludiu.

sábado, 31 de março de 2012

Só Mais Um Começo



"O Manel Cruz não sabe fazer coisas más", comenta alguém no final do concerto de apresentação dos SuperNada, o outro projecto do músico formado em 2002 com Ruca Lacerda (guitarra), Francisco Fonseca (bateria), Miguel Ramos (baixo) e Eurico Amorim (teclas). Volvidos dez anos, os quais foram atestados pelos episódios Pluto e Foge Foge Bandido, Manel Cruz e companheiros do "super nada" reúnem as várias experiências que foram registando entre 2006 e 2011 e editam «Nada é Possível», disco de estreia composto por dezasseis temas de um rock duro e mais directo (ouçam-se «Pai Natal», «A Estética da Ética», «Anedota», «Letras Loucas» ou mesmo «Perigo de Explosão» e o tema de apresentação «Arte Quis Ser Vida»). Ainda assim, os SuperNada são um misto do "punk moda funk" de «Cão», o som mais cru e duro dos Pluto e o conceito mais jazzístico da demente correria Foge Foge Bandido. Tudo muito bem condimentado pelo carisma de Manel Cruz e pelos riffs portentosos de Ruca Lacerda (para quem não se recorda, o baterista nos Pluto). Portanto, a noite foi dominada por canções. Canções mais directas e, também, mais angulosas. Momentos que agradaram, confirmando a mestria de Manel Cruz no papel de letrista, vocalista e líder de uma banda rock, e baralharam quanto ao que poderá ainda vir deste outro grupo de Manel Cruz, que de nada não tem nada.

quinta-feira, 15 de março de 2012

Dream in colours


Era a primeira grande noite de 2012, no que a concertos diz respeito, na cave da discoteca Lux. A sala esgotou e Anthony Gonzalez, o francês que se esconde por detrás do projecto M83, cumpriu com rigor e elevada “nota artística” as expectativas que se iam anotando no recinto, oferendo um espectáculo cheio de cor, suor, entusiasmo, canções dignas de uma “primeira liga” e a irresistível cadência pop que me tem acompanhado desde 2003. «Hurry Up, We’re Dreaming», o álbum de 2011, que se mantém na minha playlist quotidiana, resistindo às propostas de 2012, era o mote para o concerto e cedo se notou a maior cumplicidade entre o público e a banda quando as suas canções subiam a palco. Por algumas ocasiões se tomou o caminho pré-2011 dos M83 e ainda houve tempo para revisitar os conterrâneos Daft Punk, com «Fall». O resultado agradou, mas o entusiasmo intensificou-se mesmo quando se ouviram temas como «Reunion», «Intro», «Steve McQueen» e «Midnight City». Sonhos pop feitos de padrões rock minimalistas, aos quais se vão adicionando camadas de intensidade etéreo-shoegaze e cânticos merecedores de rotação massiva no canal MTV. Texturas indie e electrónicas vibrantes, conduzidas pelo guitarrista, cantor, programador e produtor Anthony Gonzalez e compassadas por um baterista com o diabo no corpo (Loïc Maurin), que nos puseram a sonhar em cores na cave do Lux. O som esteve, surpreendentemente, irrepreensível e nem os ares condicionados condicionaram a celebração da música dos M83. Houve quem reclamasse a ausência de temas como «Wait» e «Kim & Jessie», mas para mim este foi um concerto perfeito. Situação que relativizou a positiva prestação de Porcelain Raft, projecto do italiano Mauro Remiddi. O autor de um dos discos mais interessantes de 2012 optou por recorrer ao método de actuação mais económico, do “just push play”, e saiu-se muito bem. É sempre preferível ter uma banda em palco, mas também já comprovámos que nem sempre o resultado final é o melhor (recordo a desordem que marcou a estreia do projecto Washed Out, naquela mesma sala do Lux).