«Funeral», o álbum de estreia dos canadianos Arcade Fire, está prestes a completar dez anos e a banda de Win Butler e Régine Chassagne, mesmo após alguns desvios, continua a merecer a nossa melhor atenção. Na verdade, é a coragem e a confiança da banda em chegar mais longe, pretendendo ser maior e melhor, que mais entusiasma neste regresso. É aí que entra em cena James Murphy, dos LCD Soundsystem. Há muito que se falava no trabalho conjunto dos Arcade Fire com James Murphy. Win Butler sempre se referiu aos LCD Soundsystem com enorme admiração e as digressões em conjunto, a edição, em 2007, de um slip-single e a participação dos Arcade Fire no concerto de despedida dos LCD Soundsystem davam a entender que a colaboração era para continuar. Com a cessação de atividade dos LCD Soundsystem os rumores ganharam força e foi já na segunda metade de 2012 que o músico norte-americano se juntou aos Arcade Fire para gravar «Reflektor», o quarto álbum de originais da banda. Um disco que volta a apostar no rock heroico, mas seguindo o caminho de «Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)», o excelente single de «The Suburbs», em direção às eletrónicas e aos sintetizadores e sonoridades dos anos 80 (ouçam-se «We Exist», «Porno» e «Afterlife»). Pisca o olho à brit pop de 90, em «You Already Know», passa em revista o glam rock, com «Joan Of Arc», e explora os ritmos mais quentes e exóticos do Haiti e da Jamaica («Flas’hbulb Eyes» e «Here Comes The Night Time»). «Reflektor» é um álbum diferente na discografia dos Arcade Fire, mas é, também, mais uma magnifica coleção de excelentes canções (não posso deixar de destacar «Reflektor», «We Exist», «You Already Know», «Porno» e «Afterlife»). O disco não mantém o mesmo nível do início ao fim, mas confesso que já há algum tempo não ouvia um álbum duplo de uma assentada. Grandes Arcade Fire! E venha lá o concerto em 2014.
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segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
The Reflektors
«Funeral», o álbum de estreia dos canadianos Arcade Fire, está prestes a completar dez anos e a banda de Win Butler e Régine Chassagne, mesmo após alguns desvios, continua a merecer a nossa melhor atenção. Na verdade, é a coragem e a confiança da banda em chegar mais longe, pretendendo ser maior e melhor, que mais entusiasma neste regresso. É aí que entra em cena James Murphy, dos LCD Soundsystem. Há muito que se falava no trabalho conjunto dos Arcade Fire com James Murphy. Win Butler sempre se referiu aos LCD Soundsystem com enorme admiração e as digressões em conjunto, a edição, em 2007, de um slip-single e a participação dos Arcade Fire no concerto de despedida dos LCD Soundsystem davam a entender que a colaboração era para continuar. Com a cessação de atividade dos LCD Soundsystem os rumores ganharam força e foi já na segunda metade de 2012 que o músico norte-americano se juntou aos Arcade Fire para gravar «Reflektor», o quarto álbum de originais da banda. Um disco que volta a apostar no rock heroico, mas seguindo o caminho de «Sprawl II (Mountains Beyond Mountains)», o excelente single de «The Suburbs», em direção às eletrónicas e aos sintetizadores e sonoridades dos anos 80 (ouçam-se «We Exist», «Porno» e «Afterlife»). Pisca o olho à brit pop de 90, em «You Already Know», passa em revista o glam rock, com «Joan Of Arc», e explora os ritmos mais quentes e exóticos do Haiti e da Jamaica («Flas’hbulb Eyes» e «Here Comes The Night Time»). «Reflektor» é um álbum diferente na discografia dos Arcade Fire, mas é, também, mais uma magnifica coleção de excelentes canções (não posso deixar de destacar «Reflektor», «We Exist», «You Already Know», «Porno» e «Afterlife»). O disco não mantém o mesmo nível do início ao fim, mas confesso que já há algum tempo não ouvia um álbum duplo de uma assentada. Grandes Arcade Fire! E venha lá o concerto em 2014.
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sexta-feira, 22 de novembro de 2013
O passo certo
«Right Thoughts, Right Words, Right Action». É este o statement dos Franz Ferdinand para este ano de 2013 e o nome certo para aquele que é já o quarto álbum dos escoceses. O irregular «Tonight: Franz Ferdinand», de 2009, veio criar algumas dúvidas quanto ao futuro da banda e até houve quem questionasse a importância da sua pop & roll, certificada em 2004, com o homónimo debut álbum. O cenário não era o melhor, portanto, mas com «Right Thoughts, Right Words, Right Action» os Franz Ferdinand conseguem dar uma resposta inequívoca quanto à referida importância e ao seu papel na música dos dias de hoje. Dão mais destaque à pop que ao roll, é certo, mas o resultado é o melhor desde a estreia em 2004. Ainda assim, Alex Kapranos canta, com alguma ironia, «Don't play pop music / You know I hate pop music», em «Goodbye Lovers And Friends». A banda aposta mais na sua faceta beatlesca, recordando os melhores momentos de «You Could Have It So Much Better», de 2005, mas mantém o espírito cool de sempre («Love Illumination», «Stand On The Horizon» e «Fresh Strawberries» são alguns dos momentos mais luminosos do disco). Os Franz Ferdinand não têm a mesma força de há dez anos, mas mantêm a fasquia alta. Podem já não ser cabeças de cartaz de festivais de verão, mas isso não é o que mais interessa...
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segunda-feira, 18 de novembro de 2013
E os anos 90 aqui tão perto
Há muito que se falava no regresso aos discos dos norte-americanos Mazzy Star. É certo que Hope Sandoval, a voz e a principal figura da banda, foi dando notícias, ora com o projeto Warm Inventions (ao lado de Colm Ó Cíosóig, dos My Bloody Valentine), ora em colaborações com nomes como os The Jesus And Mary Chain, Bert Jansch, The Chemical Brothers, Air, Death In Vegas e Massive Attack. Ainda assim, para quem, durante os saudosos anos 90, se perdeu na redoma melancólica de Hope Sandoval e David Roback, esses episódios souberam sempre a pouco. Em 2011, e depois de quase quinze anos de espera, os primeiros sinais de vida deram-se através do duplo a-side single «Common Burn» / «Lay Myself Down». Canções que integram o alinhamento de «Seasons Of Your Day», o disco de 2013, e perseguem o caminho abandonado em 1996, após a edição de «Among My Swan», e já explorado por outros como Beach House, Keren Ann, Dum Dum Girls e Widowspeak. Portanto, a dream pop bucólica que procura a simplicidade melódica dos The Velvet Underground e atalha pelo shoegaze atmosférico dos 90, resultando em ecos melancólicos e bonançosos, está de volta. Os Mazzy Star não inovaram, é certo, mas oferecem-nos um disco homogéneo e dez novas canções que mantêm vivo o encanto pela sua música, das quais destaco «In The Kingdom», «Common Burn», «California» e «Lay Myself Down».
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domingo, 17 de novembro de 2013
Calvi, Anna Calvi
Se tivesse de escolher o melhor debut álbum de 2011, «Anna Calvi» seria o grande vencedor, batendo a concorrência liderada pelos trabalhos de James Blake, Washed Out, Shabazz Palaces e Cults. As canções musculadas da singer-songwriter e a forma apaixonada com que Anna Calvi se entrega a cada momento, muitas vezes comparável à fórmula interpretativa de Jeff Buckley, fizeram de «Anna Calvi» um dos momentos mais fascinantes da nova música britânica. Dados que mereceram a nomeação para o Mercury Prize e me fizeram ansiar por uma segunda entrega de Anna Calvi. «One Breath», o segundo disco da londrina, foi editado há pouco mais de um mês e a sua magia ainda perdura. Onze temas novos, mais uma vez vigorosos e apaixonantes, que prolongam o fascínio em torno de Calvi. «One Breath» mostra-nos mais do mesmo: «Eliza», o primeiro single, é o melhor ponto de contacto com o disco de 2011. No entanto, também há espaço para novos elementos: «Piece By Piece», por exemplo, parece criado da esquizofrenia sonora de Annie Clark, a.k.a. St. Vincent; «Sing To Me» cola-se ao bucolismo de Alison Goldfrapp; «Love Of My Life» é rude e capaz de fazer frente a algumas composições de Josh Homme; «Tristan» pisca o olho a Patrick Wolf, numa perspetiva Calvista e com algumas eletrónicas à mistura; «Carry Me Over» é complexo e bom; e «Bleed Like Me» segue os passos de Jeff Buckley. «One Breath» é mais um excelente disco de Anna Calvi. Um trabalho mais maduro e mais trabalhado que continua a mostrar o melhor que há na pop britânica.
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segunda-feira, 31 de dezembro de 2012
Kudos
Benjamin Biolay continua a sua demanda pop, em registo sussurrante (por via da sua voz grave e rouca) e tempero chanson française. No novo trabalho «Vengence» vemo-lo a dar mais um passo seguro na sua caminhada nouvelle chanson, com retratos da tradicional chanson em filtros pop («Marlène Déconne» e «L’Insigne Honneur»), rock («Le Sommeil Attendra»), hip hop [«Belle Époque (Night Shop #2)» e «Ne Regrette Rien»], folk («Personne Dans Mon Lit» e «Confettis»), electro («Sous Le Lac Gelé» e «L’Insigne Honneur»), brit pop («Trésor Trésor») e, também, em elementos mais sinfónicos («Venganza» e «La Fin De La Fin»). Tudo muito bem condimentado pelo espírito indie de Benjamin Biolay. «Vengence» conta, também, com a preciosa participação de Vanessa Paradis, no soberbo «Profite». Em «Sous Le Lac Gelé» ouvimos o francês a cantar com a designer Gesa Hansen e em «Confettis», tema que encerra o disco, é Julia Stone do colectivo Angus & Julia Stone a convidada. Colaborações e canções que mostram um "chantauteur" confiante e atento ao que vai sendo produzido na pop da actualidade. «Vengence» não será a melhor entrega de Benjamin Biolay, mas é um trabalho luminoso, colorido e repleto de energia.
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"Pesada, mas bonita"
Se há banda que me surpreende pela sua longevidade e integridade, essa banda terá que ser os Deftones. Os norte-americanos, carimbados à nascença com o selo do nu-metal, cresceram com os sons de 90, mas cedo souberam adaptar-se às correntes e moldar o seu som às várias dinâmicas metal. Rock experimental para uns, post-grunge para outros e alternative metal para muitos, a música dos Deftones continua a desafiar-nos com estruturas dinâmicas e estridências pop. Como o próprio Chino Moreno (vocalista) afirma: “É pesada, mas bonita”. «Koi No Yokan», que é como quem diz “premonição de amor”, é já o sétimo trabalho da banda de Sacramento e o segundo a não contar com o contributo do baixista Chi Cheng (que continua a recuperar de um grave acidente de viação ocorrido em 2008). Este é, também, o disco que nos mostra os melhores Deftones desde «White Pony» (2000). O som é visceral, mas sonhador (ouçam-se «Entombed», «Rosemary» e «What Happened To You?»). A toada é agressiva, mas extremamente melodiosa («Swerve City», «Leathers» e «Tempest»). Canções com a cara de 90, mas pensadas para o novo milénio. Notam-se mais elementos pop (os sintetizadores em «Entombed» são de destaque) e a identidade provocadora e áspera da banda mantém-se. Os Deftones estão de regresso, estão vivos e recomendam-se.
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domingo, 30 de dezembro de 2012
Change Of Heart
A sueca Sarah Assbring, a.k.a. El Perro Del Mar, está diferente. Se nos primeiros trabalhos a ouvíamos melancólica e a lamber algumas feridas (“I lost the blues for you”, em «Coming Down The Hill», ou “This loneliness / Ain’t pretty no more / Loneliness / Only taking a place of a friend”, em «This Loneliness»), agora as suas composições mostram-se mais upbeat e combativas (“Does it take a foreign place / Don’t want to feel lonely / Don’t want to feel lonely / Take it step by step / For a little moment / Don’t want to feel lonely / Don’t want to feel”, em «To The Beat Of A Dying World»). A música de El Perro Del Mar mantém a cara indie, maquilhagem agridoce e expressão pop de câmara (via Kate Bush). Porém, «Pale Fire», disco inspirado pela house music e pelo trip hop de 90 (as preferências de Sarah Assbring nessa época), é mais que isso. As novas canções mostram-nos uma nova faceta de El Perro Del Mar: assimilam-se cadências Sade, misturam-se texturas Massive Attack («Walk On By»), exploram-se produções DFA, com a orientação Hercules & Love Affair («I Carry The Fire»), sondam-se ritmos reggae («Love In Vain»), harmonias mais quentes («Hold Off The Dawn») e segue-se o modus operandi Arthur Russell («Home Is To Feel Like That»). Abrem-se novos e interessantes caminhos. Ambientes espaciais e outonais. Canções mais sofisticadas que nalguns momentos podem acusar alguma falta de direcção («Love Confusion»). Contudo, este novo «Pale Fire» é bem simpático, chegando mesmo a ser mágico em algumas ocasiões.
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sexta-feira, 28 de dezembro de 2012
Night & Day
«One Second Of Love», o segundo trabalho da norte-americana Nite Jewel, a.k.a. Ramona Gonzalez, é um dos discos outsider de 2012. Pop com heranças de 80 e ambientes escuros que conferem um certo mistério à música de Nite Jewel. Uma mistura tremendamente pop que tanto pisca o olho aos Yello, como segue de perto a synth pop de uns Visage e o som mais polido de uns Eurythmics. Canções suaves e sedutoras que me levaram à Galeria Zé dos Bois, há já uns meses, para ver e ouvir Nite Jewel em palco. A sala resultou e o público até se mostrou danado para a dança, mas «One Second Of Love» foi apresentado de forma indolente e excessivamente descontraída. O que em disco nos seduz, em palco simplesmente não funcionou. Mas atenção, o álbum é mesmo muito bom. «This Story», «One Second Of Love», «Mind & Eyes», «In The Dark», «Memory, Man» e «Autograph» são algumas das canções mais doces de 2012. Julia Holter dá uma ajudinha nas vozes (em «One Second Of Love», a canção, e «Mind & Eyes») e DâM-FunK também surge na ficha técnica (sintetizadores e piano eléctrico em «Autograph»). Lá pelo meio do glamour e da sumptuosidade pop, existe ainda tempo para momentos mais calmos e etéreos. Se «Unearthly Delights» e «No I Don’t» podiam ter sido melhor acabados, «Clive», o tema que encerra o disco, é pura sedução (via Kate Bush). Nite Jewel tem talento, mas aquela noite na Galeria Zé dos Bois deixou-me de pé atrás. Ainda assim, a esperança é que me volte a surpreender num futuro próximo (se possível tanto em disco, como em palco).
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domingo, 23 de dezembro de 2012
Where I End and You Begin
Se em 2011 os Wolf Parade anunciaram uma paragem por tempo incerto, já este ano ficámos a saber que tanto os Wolf Parade, como os Handsome Furs, dois projectos do canadiano Dan Boeckner, chegaram mesmo ao fim. No entanto, o cantor, compositor e guitarrista, rock ‘n’ roller incapaz de ficar quieto, logo seguiu caminho com os Divine Fits, um projecto que havia esboçado com o não menos inquieto Britt Daniel, dos Spoon. Chamaram Sam Brown, baterista dos New Bomb Turks, e seguiram para estúdio, em Los Angeles, com o produtor Nick Launay e o músico Alex Fischel para gravar as composições de Britt Daniel e Dan Boeckner. As gravações decorreram entre Março e Maio de 2012 e o resultado foi o excelente debut álbum «A Thing Called Divine Fits». Onze canções frescas e de alma rock adubadas por indiegente com queda para a pop. Mas o que mais me agrada nestes Divine Fits é poder encontrar as cadências e as texturas menos óbvias dos Spoon («Flaggin’ A Ride», «Would That Not Be Nice») misturadas com a exuberância dos Wolf Parade («What Gets You Alone», «Baby Get Worse») e o revivalismo dos Handsome Furs («My Love Is Real», «For Your Heart»), sem deixar de sentir a frescura e a novidade de ouvir as fabulosas canções da nova banda de Britt Daniel e Dan Boeckner.
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Wolf Parade
sexta-feira, 21 de dezembro de 2012
Tramp Power
A edição de «Tramp», o terceiro álbum de Sharon Van Etten, não foi fácil. Depois de se estrear com «Because I Was In Love» (2009) e ter lançado «Epic» (2010), um LP que mais parecia um EP, a singer-songwriter de New Jersey, a residir em Brooklyn, assinou pela Jagjaguwar, mas foi com a ajuda de Aaron Dessner, dos The National, que conseguiu concluir o seu mais recente trabalho. Dressner disponibilizou a garagem transformada em estúdio para as gravações e produziu «Tramp», disco que conta, também, com a preciosa colaboração de alguns amigos de Van Etten, como Zach «Beirut» Condon, Julianna Barwick, Bryce Dressner (irmão de Aaron e seu companheiro nos The National), Thomas Bartlett (a.k.a. Doveman), Jenn Wasner (Wye Oak) e Matt Barrick (baterista dos The Walkmen). Nomes que enriquecem o álbum e alavancam as “angústias” que Sharon Van Etten carrega na voz cristalina e nas texturas folk das suas canções. Sonoridades aveludadas, assentes na melancolia Mazzy Star e na atitude rock de PJ Harvey, que não esquecem a vertente mais tradicional da folk (Kurt Vile e os The War On Drugs também andam por aqui), nem a pop confessional e outonal dos The Antlers. O resultado é excelente. «Tramp» oferece algumas das canções mais introspectivas que 2012 viu nascer («Serpents», «Give Out», «All I Can», «We Are Fine», «Magic Chords», «Ask» e «I’m Wrong» são as preferidas). Situação que fica ainda mais à vista no CD extra, intitulado «Tramp Demos», que acompanha a edição especial e deluxe do disco.
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quinta-feira, 20 de dezembro de 2012
Oceano de heranças cor-de-laranja
Chegou tarde, mas chegou. O disco mais referenciado e falado neste final de 2012 infiltrou-se no meu dia-a-dia e a fusão neo funk em cenários R&B e enredo soul que tanto nos deu pela mão de D’Angelo, corria o ano de 2000, baralha a sua aparente ordem. Corro em busca de «Voodoo», de «Brown Sugar» e de todos os outros discos da escola soul meets rhythm & blues and funk que fui levado a procurar no início dos anos 00. De Prince a Stevie Wonder, passando por Marvin Gaye e Curtis Mayfield. Ainda assim, «Channel Orange», o disco de Frank Ocean, acaba por encostar-se também à mistura hip-hop Vs. R&B Vs. pop que tem em Kanye West, Outkast e Jay-Z os seus expoentes máximos (não duvido que Kanye West tenha perdido algumas noites de sono depois de ouvir «Pyramids», uma das canções mais fortes de 2012). Mas Frank Ocean não fica por aqui e à medida que nos vamos perdendo no colorido oceano de «Channel Orange» sentimos a necessidade de recuperar o início do colectivo UNKLE («Crack Rock»), o concentrado pop de Jamie Woon e Kelis («Lost»), o groove dos The Roots («Monks»), a sensualidade de André 3000 («Pink Matter») e as engenharias N*E*R*D via The Beatles («Super Rich Kids»). O que nos trás então Frank Ocean de novo? Após uma mixtape em 2011, com muitas e boas razões para lhe seguirmos os passos, «Channel Orange» revela um compositor que acima de tudo assimila as heranças certas para construir um R&B contemporâneo, feito de produções alternativas e, igualmente, apelativas («Thinkin’ ‘Bout You» é irresistível). Um singer-songwriter sem medo de se expor («Bad Religion» merecia o prémio!) e danado para nos fazer balançar («I Wanna See Your Pom Poms From The Stands / Come On Come On», em «Forrest Gump»).
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segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
Ain't No Sunshine
O último ano e meio tem sido produtivo para David Eugene Edwards (DEE) e os seus Wovenhand. No final de 2011 editaram «Black Of The Ink» (2011), um livro de 110 páginas feito com ilustrações e textos manuscritos pelo próprio DEE das suas composições Wovenhand. Trabalho acompanhado por um EP com novas versões para seis canções da banda, cada uma retirada de um dos seus seis álbuns de originais. Já este ano entregaram-nos «Live At Roepaen», CD e DVD que nos dá a possibilidade de ver e ouvir os Wovenhand no altar de uma velha igreja, em Ottersum, Holanda, a pregar os ensinamentos alternative country rock bíblico de DEE. Actuação registada a 14 de Dezembro de 2010, uma semana depois da passagem dos norte-americanos pelo Santiago Alquimista, a 7 de Dezembro. Mais recentemente foi revelado «The Laughing Stalk», o sétimo disco de originais e, muito provavelmente, o mais pesado da banda de Denver, Colorado. Dez anos passaram desde a estreia com «Woven Hand», mas DEE continua a inspirar-se nas liturgias do Velho e do Novo Testamento para compor as suas celebrações sagradas («King O King» e «Maize» parecem rituais xamânicos). Pascal Humbert, um dos membros fundadores dos Sixteen Horsepower, voltou a deixar DEE e novos membros foram recrutados (Gregory Garcia Jr. para o baixo e Chuck French para a segunda guitarra). No entanto, a música mantém a sua identidade folk e temperamento rock progressivo, seguindo de perto os sombrios ambientes Joy Division, a densidade Mark Lanegan Vs. Nick Cave e a veemência Tool (em 2010 os Wovenhand andaram em digressão com a banda de Maynard James Keenan). Visões apocalípticas e cânticos religiosos que DEE continua a apregoar com a sua banda de suporte. Música intensa que será abençoada pelos crentes habituais.
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Wovenhand
sábado, 15 de dezembro de 2012
Ansiedade da influência
Diz-se que são os novos Radiohead. Os Alt-J (D) são britânicos e apostam numa sonoridade indie rock, com aromáticas ligações às electrónicas, mas a sua música não tem nada de Radiohead. Identificamos as texturas rock e o engenho indie, mas as electrónicas e as suas distintas cadências folk acabam por aproximar este quarteto mais da sedução hipnotizante Wild Beasts (ouçam-se «Intro» e «Taro») e das irresistíveis harmonias Fleet Foxes. Aproximações de louvar, registe-se, que se dispõem ao lado do universo The Good, The Bad & The Queen. Projecto britânico que, entre 2005 e 2007, reuniu o génio de Damon Albarn, as ideias rítmicas de Tony Allen, as vivências Paul Simonon, o shoegazing Simon Tong e as engenharias Danger Mouse. Os Alt-J são tudo isto, mas ainda condimentam as suas canções com a frescura pop Vampire Weekend («Dissolve Me») e a eloquência The xx («MS» e «Bloodflood»). Influências e mais influências que ganham força nas vocalizações esquizofrénicas e sombrias de Joe Newman («Fitzpleasure» é paradigmática). Voz que pode causar a mesma estranheza da descoberta Clap Your Hands Say Yeah (voz de Alec Ounsworth), ou mesmo dos The Smashing Pumpkins (Billy Corgan). A conjugação de todos estes dados conferem um aspecto experimental e/ou desafiador às composições dos Alt-J. Daí as comparações aos Radiohead? Tudo leva a crer que sim. Por isso, é perfeitamente natural este entusiasmo em ouvir novas canções Alt-J. Temas como «Breezeblocks», «Something Good», «Tessellate», «Matilda» e «Fitzpleasure», incluídos no debut álbum «An Awesome Wave», a isso nos obriga.
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Alt-J (∆),
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terça-feira, 11 de dezembro de 2012
Ekstasis
Numa altura em que as listas de final de ano começam a mostrar-se, «Ekstasis», a proposta de 2012 da norte-americana Julia Holter, devia ao menos ficar reconhecido como o disco mais desafiante do ano. Música de câmara e alma etérea que tanto procura o repto pop Arthur Russell, em universos “Lynchianos”, como a experimentação Laurie Anderson e a elegância Julianna Barwick. Elementos que fogem do formato pop mais standard, mas que nos abrem novos caminhos para a música contemporânea. «Ekstasis» é uma continuação natural do debut álbum «Tragedy», de 2011. Aliás, julgo ser impossível falar de «Ekstasis» sem olhar para a extraordinária “tragédia grega” que Julia Holter nos ofereceu no ano passado (outra descoberta deste ano de 2012). O facto é que os discos acabam por complementar-se. Além da evidente familiaridade artística, «Tragedy» é inspirado na peça «Hipólito», de Eurípides, e o título «Ekstasis» é um termo grego para identificar um estado de espírito conflituoso (“fora de si mesmo”).Ambos os discos são feitos de texturas celestes, misturando electónicas com elementos clássicos e outros mais pop. «Tragedy» é uma obra densa e negra e «Ekstasis» um disco mais acessível. Música atmosférica e de definições híper-sónicas que deixa marcas e mostra-nos uma saída avant-garde para a pop dos dias de hoje.
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Julia Holter,
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Allelujah, Allelujah!
«Allelujah! Don’t Bend! Ascend!», o novo álbum dos Godspeed You! Black Emperor (GY!BE), surge dez anos após «Yanqui U.X.O.» e numa altura em que já nos tínhamos habituado à ausência da banda canadiana. É certo que o colectivo regressou aos concertos em 2010, mas até à edição do disco nada previa a edição discográfica. No entanto, o que realmente interessa é que os GY!BE estão de regresso e continuam em grande forma. O novo disco é composto por quatro temas, sendo que «Mladic» e «We Drift Like Worried Fire», os mais extensos, resultam de regravações de «Albanian» e «Gamelan», duas peças que a banda apresenta ao vivo desde 2003. A música dos GY!BE continua visceral e instrumental. Não há poesia. Não há “cantorias”. Não há palavras mansas. O som é cru e ainda bem. Foi assim que me seduziram em 2000, com o estrondoso duplo álbum «Lift Yr. Skinny Fists Like Antennas to Heaven!» e é do mesmo modo que me continuam a aquecer com este «Allelujah! Don’t Bend! Ascend!». «Mladic» é um dos temas mais pesados e igualmente mais persuasivos dos GY!BE. Rock rude, construído em crescendo, com samples a evocar o genérico da série «Homeland» e uma secção de cordas a levar-nos até ao Médio Oriente. «Their Helicopters' Sing» resulta quase como um carregar de baterias, um interlúdio feito de feedback que nos permite enfrentar mais vinte minutos de riffs e percussões em modo montanha russa, em «We Drift Like Worried Fire». «Strung Like Lights At Thee Printemps Erable», o último momento do disco, é já a fase de descontracção e dos alongamentos. Os GY!BE continuam, portanto, a ser um oásis na música actual. Constroem temas a partir de ondas sonoras, turbilhões de riffs e muito feedback. Musicam um deserto áspero e procuram adicionar-lhe elementos políticos, propagando, ainda que de forma controlada, uma anarquia musical difícil de simular. Os GY!BE estão de regresso aos discos. Allelujah, Allelujah!
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Godspeed You Black Emperor; GYBE,
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sexta-feira, 7 de dezembro de 2012
Glamorous Indie Rock And Roll
Qual é a banda, qual é ela, que mistura na perfeição o rock psicadélico de finais de 60 e inícios de 70, com a pop distinta The Beatles, cadências The Beach Boys e os sonhos prog-rock contemporâneos The Flaming Lips e MGMT? A solução para este enigma melómano é Tame Impala. Banda australiana que editou, em 2010, o soberbo álbum de estreia «Innerspeaker» e regressou este ano aos discos com o não menos espectacular «Lonerism». O novo trabalho volta a contar com as engenharias dream-pop de Dave Fridmann e, só por isso, parte do meu entusiamo fica explicada. No entanto, e depois de ouvir «Lonerism», concluo, uma vez mais, que estes Tame Impala são mesmo muito bons. Kevin Parker, o compositor, cantor e produtor, volta a construir texturas densas (ouça-se «Why Won't They Talk to Me?»), canções glam rock («Elephant», o primeiro single, fica a meio caminho entre o stoner rock dos Queens Of The Stone Age e o psicadelismo da fase «Abbey Road» dos The Beatles) e melodias extremamente sedutoras («Feels Like We Only Go Backwards», outro single, é rock lânguido, mas irresistível). Neo-psychedelia com perfume aussie-pop? Por que não. O certo é que «Lonerism» é uma das melhores propostas rock da actualidade e um dos discos mais importantes de 2012.
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quarta-feira, 5 de dezembro de 2012
Natasha
É com «Lilies», uma belíssima canção que pisca o olho às definições sombrias This Mortal Coil, que Natasha Khan, a singer-songwriter britânica que se apresenta como Bat For Lashes, abre «The Haunted Man». Este é o terceiro trabalho Bat For Lashes, o qual sucede aos aplaudidos «Fur And Gold» (2006) e «Two Suns» (2009), mas Natasha Khan continua a sua glamorosa viagem synth-pop pelos saudosos anos 80 (ouçam-se, por exemplo, «Oh Yeah», «Marilyn» e «A Wall»). As novas canções são mais cruas e os seus trajes mais curtos. O resultado é íntimo e afectivo, evocando nomes como Kate Bush, Tori Amos e Björk. Nada de novo, portanto. Ainda assim, «The Haunted Man» vem adicionar mais brilho ao já cintilante cancioneiro Bat For Lashes. Natasha Khan deixou cair alguns dos ornatos garridos do passado, é certo, mas as suas composições mantiveram as texturas pop e cresceram. «Laura», o primeiro single, pode não ter a sofisticação de «Daniel» (o single que apresentou o anterior «Two Suns»), mas o seu tom pessoal e nostálgico dá-lhe a força suficiente para ser uma das canções mais fortes de 2012. E se «All Your Gold», o segundo single, tem o groove necessário para se relacionar com as anteriores propostas discográficas do projecto, «Rest Your Head», um provável single, mostra-nos que as cadências mais dançáveis não ficam esquecidas. Assombroso, melancólico e sonhador. Este é «The Haunted Man», o novo disco de Bat For Lashes.
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sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Bright soul
Jessie Ware deu os primeiros passos na música ao lado de Aaron Jerome, o músico, produtor e DJ britânico que está por detrás do projecto SBTRKT. Se em 2010 a ouvimos no single «Nervous», em 2011 juntou-se a Sampha, o “outro” elemento da equação SBTRKT, para gravar «Valentine» e colaborou ainda com Joker (produto dubstep da 4AD) em «The Vision». Posteriormente, e ainda antes da estreia a solo com o single «Strangest Felling», participou no homónimo debut álbum dos mesmos SBTRK, emprestando a voz a um par de canções e co-escrito «Right Thing To Do». Os dados estavam lançados e, já em 2012, Jessie Ware começa a mostrar os primeiros dados de «Devotion», o álbum de estreia que chegou à rua em Agosto passado. «Running», o single de apresentação, revelava uma singer-songwriter com queda para a soul e para o smooth jazz, seguindo de perto Sade Adu e Lisa Stansfield. Seguiu-se «110%» e, a par das produções laboratoriais a la SBTRKT, vislumbrámos a interessante aproximação a Janelle Monáe, de «The ArchAndroid». «Wildest Moments», a canção que Katy Perry “promoveu” via Twitter, dando mais visibilidade a Jessie Ware, pisca o olho à definição pop dos The xx. Já «Night Light», o último single, resulta num exercício de pop sofisticada com bases R&B e na melhor sombra de Florence And The Machine. «Devotion» é soul, mas não se esgota aí. Há espaço para a pop e para o pormenor. Produções bem condimentadas e, essencialmente, canções, ou seja, a base para podermos ter um bom disco pop.
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quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Cowboys & Aliens
Gorada a audição de «Battle Born», o último e inenarrável disco de 2012 dos norte-americanos The Killers, viro-me para «The 2nd Law», o mais recente trabalho dos britânicos Muse. O disco já deu muito que falar, devido à anunciada entrada em cena do dubstep na música da banda (dizem que por influências Skillex) e à fraquinha canção oficial dos Jogos Olímpicos de 2012 («Survival»). Percorridos os cerca de cinquenta e três minutos de «The 2nd Law», notamos a tentativa dos Muse em aproximar-se de novos mercados e novas ideias pop. Isto sem nunca perder de vista o prog-pop-rock e os Queen. «Supremacy», o tema de abertura, dispara em todas as direcções e conceitos já explorados pelos Muse, mas a sensação é a de estarmos perante uma versão cinematográfica e mais calórica de «Apocalypse Please», a extraordinária canção que abre «Absolution» (2003). Em «Madness», «The 2nd Law: Unsustainable» e «The 2nd Law: Isolated System» conferimos a referida aproximação ao mundo do dubstep, em três dos momentos mais interessantes do álbum. «Panic Station», não lhes fica atrás, recuperando um je ne sais quoi de 80, criado em torno do funk Red Hot Chili Peppers e da pop INXS. «Animals», por sua vez, cola-se à estrutura notável de «Endlessly», outra canção marcante de «Absolution», adicionando-lhe o momento alto que nunca chegou a existir em 2003. Ainda assim, «Animals» é um dos exercícios chave de «The 2nd Law». Os Muse mostram-se mais acessíveis, continuando a sua caminhada em direcção a batalhas intergalácticas, western futuristas e disputas entre o bem e o mal, em realizações, sempre triunfantes, de Matthew Bellamy.
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terça-feira, 20 de novembro de 2012
Mama Said
«Come Home To Mama», o terceiro álbum de originais de Martha Wainwright, não é um disco fácil. «Proserpina», o seu primeiro single e a última composição conhecida de Kate McGarrigle, a Mãe de Martha e Rufus Wainwright que faleceu em Janeiro de 2010, proporciona-nos um momento raro na discografia da canadiana. O tema evoca a relação entre Mãe e Filha (Proserpina é filha de Júpiter e Ceres e é raptada por Plutão para ser sua esposa), por isso é impossível não notar a emoção que percorre na voz de Martha. A sua interpretação visceral, ainda o elemento diferenciador na música de Martha Wainwright, e as texturas clássicas da canção aproximam-na do cancioneiro do irmão Rufus. Porém, «Proserpina» parece ter sido escrita para a sua voz grave e feminina. Até esse momento, «Come Home To Mama» mantém os parâmetros habituais em Martha Wainwright, combinando construções folk com estruturas pop-rock e atitude singer-songwriter irreverente. No entanto, na segunda metade de «Come Home To Mama», Martha Wainwright perde essa postura e, apesar de nos mostrar afinidades com ferramentas mais electrónicas, em «Four Black Sheep», canções atraentes, como «Leave Behind», e confissões maternais, em «Everything Wrong», o facto é que o disco não se segura em pé. «Come Home To Mama» não desilude, mas o resultado seria bem melhor se Martha Wainwright optasse por apresentar um EP.
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