Depois da
pop world music de
Beirut e da
folk sedutora de
José González, os meus intentos melómanos atiraram-se de corpo e alma às mais recentes esquizofrenias dos irmãos Friedberger, dos
The Fiery Furnaces, ao som matricial dos norte-americanos
Battles e à recente revisitação dos islandeses
Sigur Rós.
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Já aqui tive a oportunidade de salientar que os norte-americanos
The Fiery Furnaces são um dos pólos de criatividade
pop mais activos da música contemporânea. As criações
indie psychedelic experimental pop rock de Matthew e Eleanor Friedberger não encontram barreiras. A cada novo álbum esta louca irmandade revela-se impar (para o bem e para o mal). «
Widow City», quinto álbum de originais, sem contar com a compilação de
singles e
lados-b «
EP» (2005), parece um somatório de todas as anteriores experiências discográficas (excluindo o tresmalhado «
Rehearsing My Choir»). Contudo, a sonoridade parece agora mais acessível. As abruptas e características mudanças de ritmo e rumo já são menos surpreendentes (não sendo este um factor necessariamente mau). «
Widow City» respira o
rock dos anos 70 («
Duplexes Of The Dead», «
Uncle Charlie» e «
Navy Nurse»), pisca o olho à
pop de 60 («
My Egiptian Grammar»), brinca, na óptica do utilizador, com as ferramentas
copy + paste, dá de caras com o
pink-death-metal dos
Death From Above 1979 e com a
pop desvairada dos
The Go! Team («
Clear Signal From Cairo») e aproximam-se dos sinfónicos
Sparks («
Automatic Husband» e «
Japanese Slippers»). No entanto, alguns dos atalhos percorridos, como é bom exemplo o tema de abertura «
The Philadelphia Grand Jury», revelam-se ambiciosos de mais e, por momentos, sentimo-nos completamente perdidos. Os dezasseis temas apresentados em uma hora de música também poderão transmitir algum cansaço ao ouvinte. Mas nada que manche a minha admiração por este duo norte-americano e por «
Widow City», que à data nos ofereceu
singles como «
Ex-Guru», «
Navy Nurse» e «
Duplexes Of The Dead».
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Mantemos a orbita descontrolada para falar de um dos álbuns mais marcantes de 2007. Os norte-americanos
Battles são compostos pelo baterista John Stanier (
Helmet e
Tomahawk), o guitarrista / teclista Ian Williams (
Don Caballero e
Storm & Stress), o guitarrista / baixista David Konopka (
Lynx) e o vocalista (entre outras coisas) Tyondai Braxton. Quatro elementos que vêem o
rock como uma enorme matriz, na qual o elevado número de variáveis electrónicas resulta em exercícios surpreendentes e inesperados. Cada tema apresentado parece um pequeno conto em formato de banda desenhada. «
Atlas», o primeiro
single de «
Mirrored», é
prog-rock a seguir caminhos
indie. Sete minutos de pura experimentação
prog-rock em que a percussão assemelha-se ao ritmo avassalador e disforme de «
Beautiful People», do controverso
Marilyn Manson, o
riff de guitarra é compassado e eficaz e as vocalizações retiradas do imaginário tribal de Avey Tare, dos
Animal Collective. «
Tonto», segundo
single, é um autêntico choque de civilizações: recuperam-se melodias
folk, algum exotismo asiático e guitarradas
funk que julgávamos possíveis só em John Frusciante (o dos anos 80/90). «
Leyendecker» revela-nos a vertente mais fantasiosa dos Battles. «
Rainbows», o tema mais longo e mais sónico de «
Mirrored», é um verdadeiro caleidoscópio sonoro de ritmos e imagens; tal como «
Tij». No entanto e paradoxalmente, ou talvez não, a música é negra e suada. Transpira
rock em formato digital e vislumbra qual seria o resultado de vermos Marc Bolan e os seus T.Rex dominados pelas electrónicas do século XXI.
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Chegamos à mais recente edição dos islandeses
Sigur Rós, uma das forças
indie pop rock mais ouvidas e apreciadas por estas bandas. Foi em 2000, com a edição do fenomenal «
Ágætis Byrjun», que os Sigur Rós fizeram história, marcando uma importante passagem da música contemporânea. Às melodias clássicas irrompem turbilhões de som em forma de
riffs de guitarra. A canção é, quase sempre, um exercício em crescendo que ganha vida própria. Pressentem-se emoções fortes e o leve ou arfante respirar de cada criação. Não consigo explicar, mas sinto uma qualquer atracção pelos sons vindos do «
estúdio piscina» dos Sigur Rós, razão pela qual qualquer edição do colectivo é marcada por alguma ansiedade. Há alguns meses os Sigur Rós editaram o DVD «
Heima» (um dos documentários musicais mais interessantes e completos dos últimos tempos e o registo de actuações ao vivo nos locais mais improváveis da Islândia) e o que podemos classificar como um conjunto de dois EP: «
Hvarf» e «
Heim». Se o primeiro «
Hvarf» (
desaparecido) junta alguns inéditos (entre os quais o espantoso «
I Gær») a duas reinterpretações do álbum de estreia, «
Vón» (1997), a segu

nda trilha sonora, intitulada «
Heim» (
casa), revela versões acústicas e mais despidas de alguns dos temas mais conhecidos da banda. Não se tratando de um
best of, «
Hvarf / Heim» acaba por ser uma inteligente compilação de algumas memórias esquecidas e outras revisitações da primeira década de música dos Sigur Rós.
Para terminar em beleza deixo o vídeo de «
Viðrar Vel Til Loftárása», uma das obras primas dos Sigur Rós.