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sábado, 18 de agosto de 2012

2012 | Viagens à tasca em período de férias V


Varenna, Lago di Como

Para terminar esta temporada de viagens à tasca em período de férias destaco três apostas. As duas primeiras, o mais recente trabalho dos Dirty Projectors e a banda sonora de «The Girl With The Dragoon Tattoo», têm o selo de 2012, e a terceira, o último álbum dos italianos Verdena, trata-se da já habitual proposta local.

Corre na música dos Dirty Projectors, o mesmo entusiasmo inovador que encontramos nos trabalhos de nomes como Animal Collective, The Go! Team, Grizzly Bear ou, mesmo, Shabazz Palaces, THEESatisfaction e tUnE-yArDs. A procura constante em criar melodias pop com as cadências e os elementos mais improváveis. No caso dos norte-americanos Dirty Projectors, mais uma banda a sair de Brooklyn, essa demanda apoia-se muito em texturas The Magnetic Fields, ritmos Fela Kuti, inspiração Robert Wyatt e efervescência Talking Heads. Mas Dave Longstreth, o académico e mentor do grupo, baralha as suas próprias fórmulas art-pop de disco para disco. No anterior «Bitte Orca», por exemplo, o R&B era crivado pela sua filosofia indie rockStillness Is The Move» continua a ser uma excelente canção). Para o mais recente «Swing Lo Magellan», o compositor volta a piscar o olho ao R&B (ouça-se «The Socialites») e às produções mais orquestrais («Dance For You» e «About To Die» são belos momentos), procurando também parcerias no rock alternativo que, centrando as suas atenções em Neil Young e nos The Replacements, fez história nos anos 90. Note-se o portentoso refrão de «Offsprings Are Blank», o tema de abertura, ou a folk(lore) de «Just From Cheveron», do tema título «Swing Lo Magellan» e «Unto Caeser». Mas o melhor de «Swing Lo Magellan» está nas suas melodias e na forma natural com que as complexas composições dos Dirty Projectors se tornam acessíveis. Canções apelativas e de tempero vintage, como são exemplo «Gun Has No Trigger», «Impregnable Question» e «Irresponsible Tune», que constroem mais um excelente álbum destes nova-iorquinos.

Quanto à banda sonora de «The Girl With The Dragoon Tattoo», filme de David Fincher, o disco foi adquirido devido à estrondosa versão de «Immigrant Song» (original dos Lez Zeppelin, aqui interpretado de forma superior por Karen O dos Yeah Yeah Yeahs). O álbum é composto por instrumentais nebulosos e ambiências sinistras. Um trabalho assinado pela dupla Trent Reznor e Atticus Ross, a mesma que em 2010 venceu o óscar com a banda sonora de «The Social Network» (outro filme de David Fincher) e que, com a ajuda de Mariqueen Maandig (a esposa de Trent Reznor) forma os How To Destroy Angels. Projecto que contribui também para «The Girl With The Dragoon Tattoo» com uma luminosa cover de «Is Your Love Strong Enough?», o tema que em 1985 reuniu Bryan Ferry e David Gilmour. Tudo o resto, ou seja, três discos, trinta e nove temas e quase três horas de música, é feito de instrumentais. Temas que expressam muito bem o que se passa no ecrã (noto o frenesim quase doentio de «A Thousand Details» e «Infiltrator» e a perturbante «Parallel Timeline With Alternate Outcome»). Contudo, esta é uma banda sonora com quase 175 minutos para um filme com cerca de 155 minutos. É muita e boa música, mas julgo que podiam ter deixado algumas destas ideias para as sequelas que ainda hão-de vir.

Fecho então esta série de buscas discográficas com a proposta italiana. Foi difícil chegar a um consenso, pois a comunicação com os “especialistas” locais foi má e a audição esteve sempre limitada às fracas apostas do momento dos postos de escuta. No entanto, uma rápida pesquisa no Youtube revelou-me «Razzi Arpia Inferno E Fiamme», o single que em 2011 apresentou «Wow», o duplo álbum dos Verdena. A canção é bem-parecida e as suas vestes indie folk convenceram-me. Quanto à banda, composta pelos irmãos Alberto e Luca Ferrari e Roberta Sammarelli, descobri que se estrearam nos discos em 1999 e em 2008 até andaram em digressão com os norte-americanos MGMT. A sua música vive muito da pop britânica dos Embrace (ouçam-se «Scegli Me (Un Mondo Che Tu Non Vuoi)» e «Sorriso In Spiaggia, Pt. I») e da genica dos Muse Miglioramento», «Sorriso In Spiaggia, Pt. II» e «Rossella Roll Over»). Demonstram, também, afinidades com a grandiosidade U2, o recente rock insípido dos The Smashing PumpkinsMi Coltivo») e alguns ambientes AirAdoratorio»). Apostam no rock mais psicadélico («Badea Blues» e «Loniterp»), mas «Wow» não funciona como disco. Aliás, os duplos álbuns estão cada vez mais em desuso e este «Wow» até podia ser bem melhor se fosse mais curto.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

2012 | Viagens à tasca em período de férias IV



Duomo, Milano

Foi através do sítio electrónico da publicação online Stereogum, num artigo sobre as promessas musicais para o ano de 2011, que esbarrei na pop minimal e hipnótica de Youth Lagoon, o projecto do norte-americano Trevor Powers. Logo percebi, no ADN do tema «July», que este era um projecto a seguir. Uma combinação cintilante da melancolia Mark Linkous (a.k.a. Sparklehorse) com a melhor dream pop dos The Flaming Lips e as tonalidades Sigur Rós (o crescendo de «July» e «Montana»), ideias Washed Out (a sedutora nostalgia de «Daydream») e o gosto pelo minimalismo e melodias pop dos The xx (ouçam-se «Posters» e «Cannons»). «The Year Of Hibernation», o debut álbum de Youth Lagoon, agarra-se, também, ao fatalismo Perfume Genius, o projecto do conterrâneo Mike Hadreas. No entanto, ao passo que Mike Hadreas se afoga no seu próprio derrotismo, Trevor Powers sabe controlar esse lado mais negro da sua música com outros elementos mais luminosos. As suas canções demonstram ter o tempero e as quantidades certas de melancolia e sobriedade. Um excelente álbum de estreia de mais um jovem compositor norte-americano, a seguir com atenção.

Grimes, o pseudónimo de Claire Boucher, também constava no supracitado artigo da Stereogum. Na altura, notavam que a canadiana, hoje com 24 anos, ainda tentava encontrar-se com a sua música avant-pop. No entanto, as ideias consistentes e melodias suaves de «Geidi Primes» (2011) já criavam água na boca. «Halfaxa», o debut álbum, adquirido em Milão, mostra-nos alguns ensaios electrónicos de peças maiores. Momentos introspectivos e atmosféricos que, mesmo antes da edição de «Visions», o disco de «Genesis» e «Oblivion» (dois dos melhores singles de 2012), já manifestavam uma identidade própria. Gravações caseiras e de tempero lo-fi processadas via Arthur Russell, o visionário contemporâneo que nos deixou precocemente em 1992. Temas dançáveis e vocalizações angelicais que, aqui, se apresentam no seu estado mais puro e evidenciam a arte de criar ambientes, por Claire Boucher. Dados que fazem de Grimes uma das grandes surpresas musicais dos anos 10.

segunda-feira, 13 de agosto de 2012

2012 | Viagens à tasca em período de férias III


Arena di Verona

E agora os Okkervil River, banda já recorrente nestes períodos de férias... Tudo leva a crer que os norte-americanos não reúnem grande consenso por cá. Pelo menos, e no que refere às apostas discográficas, é raro encontrarmos um disco dos texanos nos nossos escaparates. Por isso tenho conseguido reunir a discografia dos Okkervil River graças às pesquisas estivais. Se no ano passado encontrei «Down The River Of Golden Dreams» (2003) e «I Am Very Far» (2011), este ano foi «Don’t Fall In Love With Everyone You See» (2002). Aquele que é o primeiro LP da banda, e o sucessor dos EP «Bedroom» (1998) e «Stars Too Small To Use» (1999), mostra os Okkervil River de sempre, mas numa fase inicial da sua carreira. Contactos naturais com a música de Ryan Adams e Bright Eyes, texturas Neutral Milk Hotel e matriz Neko Case meets Giant Sand. Composições folk rock, com queda para a country, mas de olhos postos na pop e no storytelling. Ouça-se a extraordinária evocação do julgamento do homicídio “1991 Austin yogurt shop murders”, em «Westfall»: «They're looking for evil / Thinking they can trace it / But evil don't look like anything».

Quem também iniciou a carreira na folk foi o norte-americano Sufjan Stevens. Apesar de nos últimos tempos ter enveredado por caminhos mais electrónicos, o certo é que as suas composições sempre se apoiaram no trio guitarra acústica-banjo-piano. Ainda assim, na ficha técnica de «A Sun Came!», o debut álbum do singer-songwriter editado em 2000 e reeditado e remasterizado em 2004, verificamos que o músico alargou o leque a instrumentos de sopro (flauta, oboé e saxofone), percussões, baixo, xilofone, sitar e sintetizadores. Tudo pensado, produzido e gravado num 4-pistas pelo próprio Sufjan Stevens (excepção feita para «Joy! Joy! Joy!» e «You Are The Rake», os dois temas “novos” incluídos nesta reedição de 2004). O resultado final, uma mistura de folk com pop barroca e alguns elementos étnicos e mais tradicionais, fica um pouco aquém dos seus discos seguintes, notando-se, aqui, alguma imaturidade na hora de construir uma canção pop. «A Sun Came!» pode não ser aquele debut álbum que marca toda a carreira de um singer-songwriter, mas é um belo disco para quem decidiu gravar um conjunto de canções no seu 4-pistas. Quanto a «Enjoy Your Rabbit», o segundo trabalho do norte-americano, editado em 2001 e reeditado em 2003, é como se tratasse de novo debut. Isto por que Sufjan Stevens coloca de lado a folk para se entregar de corpo e alma às electrónicas. Diríamos tratar-se de um álbum de estreia do projecto paralelo de Sufjan Stevens, o qual já nos ofereceu belos momentos pop (quem se recorda de «The Age Of Adz»?). Um trabalho composto por um ciclo de canções organizado em torno dos animais do zodíaco chinês e que em 2009 acabou por ser recriado pela Osso String Quartet, no disco «Run Rabbit Run». “Instrumentasons” que, aqui e ali, até desenvolvem boas variações indie-pop-qualquer-coisa (ouçam-se

«Year Of The Ox», «Year Of The Dragon» e, claro, «Year Of The Horse»). Peças de fusão fragmentadas que apresentam sempre um ambiente e uma disposição próprios para cada signo. E assim, em vez de dar somente um passo em frente, Sufjan Stevens apostou no triplo-salto em direcção ao desconhecido e por isso atribuía-lhe já o ouro olímpico.

Quanto aos Japandroids, duo canadiano que desde 2009 nos aquece o corpo com as suas texturas garage-punk-rock, também não é fácil encontrar a sua discografia por cá. Se o álbum de estreia «Post-Nothing» (2009) foi descoberto em Madrid, o mais recente «Celebration Rock» (2012) chegou de Milão. Disco que começou a ser gravado ainda em 2010, com a edição do excelente single «Younger Us» (o sexto tema de «Celebration Rock»), voltando a apostar em canções frenéticas e ritmos acelerados. Os Japondroids mantêm, assim, intactos todos os pontos fortes do debut «Post-Nothing». Aperfeiçoam a urgência punk-rock, com um som mais limpo e estruturas amplificadas, mas o frenesim é o mesmo. Melodias proveitosas e canções feitas do entusiasmo “carpe diem”: «Long lit up tonight / And still drinking / Don't we have anything to live for? / Well of course we do / But until they come true / We're drinking» («The Nights Of Wine And Roses»). Um verdadeiro brinde à vida («It's a lifeless life with no fixed address to give / But you're not mine to die for anymore / So I must live», em «The House That Heaven Built»). Esta é, sem dúvida alguma, uma das melhores celebrações da música de 2012.

domingo, 12 de agosto de 2012

2012 | Viagens à tasca em período de férias II


Bellagio, Lago di Como

Do mercado discográfico italiano não há muito a dizer. Numa curta análise e comparação com a realidade portuguesa, notei que a oferta é maior (o que não é difícil), os preços são idênticos, mas o consumidor é completamente descurado. Será possível, nos dias de hoje, uma loja de discos não permitir a audição de um determinado disco porque este não se encontra nos postos de escuta? Pois bem, em Milão, é assim que funciona. Como se não bastasse, o trabalhador de uma La Feltrinelli, Mondadori, ou mesmo, Fnac milanesa demonstra grandes dificuldades em comunicar inglês e vende discos como se estivesse a vender roupa ou, mesmo, batatas.

Problemas de expressão à parte, sigo viagem com alguns discos que constavam na lista “a comprar” antes da passagem por Milão. «Replica», do projecto de Daniel Lopatin, Oneohtrix Point Never, era desejado devido às maravilhas que lhe eram atribuídas na blogosfera, das quais já tinha aprovado algumas («Replica», o single, é um tema saboroso). No entanto, havia algo de misterioso e por descobrir no ciclo de canções que Daniel Lopatin criou a partir de fragmentos lo-fi obtidos em inúmeros anúncios de televisão. “Ambientasons”, feitos de sintetizadores vintage e da vontade de recuperar algo do passado. Pequenos momentos que sempre estiveram connosco, sendo despertados pela mestria de Oneohtrix Point Never em criar ambientes e lugares comuns. «Replica» mexe com o nosso passado e acaba por mexer também connosco. Uma obra que, em certos detalhes, se posiciona ao lado de «Person Pitch», de Panda Bear, com Brian Eno sempre à espreita. Composições em jeito de música ambiente, sem nunca chegarem ao campeonato da música de elevador. Electrónicas de sentido alargado, mas pensadas nos pormenores.


Outro disco que procurava há já algum tempo era «Coastal Grooves», o debut álbum de Blood Orange, o mais recente projecto de Devonté Hynes. Trabalho já descrito como uma profunda viagem à cultura pop de 80 da música norte-americana e que Devonté Hynes compôs depois de se instalar em Nova Iorque. O músico, nascido em Houston, no Texas, mas criado em Essex, em Inglaterra, explora assim o glamour e a extravagância da noite nova-iorquina, cruzando ritmos lânguidos e riffs ligeiros com elementos pop apaixonados, mas despretensiosos. Canções que misturam a melancolia e a paixão, o ciúme e a perda, a ansia de um novo amor e a saudade. Musicalmente, «Coastal Grooves» mostra o seu interesse pelos lugares propostos por Twin Shadow, perseguindo, também, as melodias lo-fi de Ariel Pink e a sabedoria dos The Deehunter. Este é um disco repleto de potenciais singles (além dos inevitáveis «Forget It», «I’m Sorry We Lied», «Champagne Coast» e, claro, «Sutphin Boulevard»). Só é pena a não inclusão de «Dinner» e «Bad Girls», dois dos primeiros temas gravados por Blood Orange, mas isso deve estar guardado para a possível Deluxe Edition, a editar daqui a uns anos.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

2012 | Viagens à tasca em período de férias I


Piazza del Duomo, Milano

Chegou a melhor época do ano! Férias, descanso, viagens, novidades, hotéis, museus, sol e shopping… Desta vez o destino foi Milão, com passagens obrigatórias por Verona (Obrigado Gi), Lago Maggiore e Lago di Como. Além do escape, a procura pelo loja de discos mais próxima ofereceu-me alguns souvenirs importantes. Primeiro, e como já vem sendo habitual por estas ocasiões, centro as minhas atenções no formato EP.

«Earth Division», o malfadado disco dos escoceses Mogwai, o qual não passou incólume às London riots de 2011 (recordo que a primeira tiragem do EP foi destruída num incêndio), foi um dos EP adquiridos. Quatro canções, qual delas a mais distante do sonante turbilhão eléctrico Mogwai, que buscam uma visão mais calma e plácida na música do grupo. Portanto, esqueçam os ruidosos riffs e as características ondas sónicas em modo repeat dos Mogwai. «Earth Division» é composto por temas outonais e bucólicos, criados em torno do piano e da viola, do violino e do violoncelo e da harmónica. Canções gravadas nas mesmas sessões de «Hardcore Will Never Die, But You Will» (2011), mas que acabaram excluídas do seu alinhamento final. Leftovers estranhos, quando enquadrados na discografia dos Mogwai, dos quais nos colamos a «Drunk And Crazy», o momento mais electrónico do EP e a canção que realmente merece destaque.


«An Argument With Myself» é o EP de 2011 do sueco Jens Lekman. O senhor já não editava nada desde 2007, ano em que revelou algumas das suas cartas de amor, em «Night Falls Over Kortedala». O EP antecedeu a edição de «I Know What Love Isn’t», o novo álbum de Jens Lekman que chega às lojas já no próximo mês de Setembro, com cinco canções leves e propicias para a época estival, com passagens por África (via Vampire Weekend) e pela América Latina. O singer-songwriter mantém a pose e a atitude de crooner, continua a cantar as histórias do seu dia-a-dia (desta vez até descreve a passagem de Kirsten Dunst por Gotemburgo) e volta a abraçar o romantismo pop dos Belle & Sebastian e de Stephin Merritt (The Magnetic Fields). Entrega-se aos ritmos quentes do tropicalismo e às cadências tribais para criar um verdadeiro baile de festas, numa qualquer instância balnear. Coisa boa e recomendável.


E agora um pouco de yogaGonjasufi, a.k.a. Sumach Ecks, a.k.a. Sumach Valentine, mostrou-se ao mundo (a solo) em 2010, com o extraordinário debut álbum «A Sufi And A Killer». Posteriormente já nos ofereceu o EP «9th Inning» (2011) e no início deste 2012 voltou à carga com «MU.ZZ.LE», um mini álbum composto por dez faixas, algumas em formato canção, e vinte e quatro minutos de música sombria e apetecível. «MU.ZZ.LE» dá, assim, seguimento à demanda de Gonjasufi pela melodia. Para isso recorre, uma vez mais, ao trip-hop de outros tempos e ao copy+paste que resulta num autêntico choque de civilizações (leia-se referências musicais). Portanto, «MU.ZZ.LE» acaba por ser uma continuação de «A Sufi And A Killer». Um mini álbum feito à imagem do álbum que me conquistou pela sua alma de meditação e pela dança do yin e do yang que percorre todas as suas entrelinhas. Uma dualidade de forças presente e sedutora, mas difícil de explicar. Gonjasufi, o rapper, o cantor, o DJ e o professor de yoga, mantém assim intactos os créditos de excelente criador de ambientes e de peças pop.


Para terminar, «Mount Wittenberg Orca». Trabalho que reúne os Dirty Projectors e a islandesa Björk. EP composto por oito canções, todas elas escritas por Dave Longstreth para uma iniciativa de beneficência e inspiradas num passeio de Amber Coffman (vocalista e guitarrista da banda) pela montanha Wittenberg. O resultado é feito por vinte minutos de música fresca e cristalinda. Canções sem qualquer maquilhagem e de espírito ecológico, construídas em torno da voz e de instrumentações simples. Portanto, «Mount Wittenberg Orca» é um disco com matriz Dirty Projectors, mas que se aproxima da fase mais crua e despida da música de Björk («Medúlla», de 2004). Não acrescenta nada à discografia de ambos os universos, mas funciona muito bem para o propósito que viu nascer o projecto. Note-se que todas as receitas deste trabalho conjunto revertem para a National Geographic Society, para a preservação do ecossistema marítimo.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

2011 | Viagens à tasca em período de férias X


Vasa Museet

Para fechar de vez as incursões tasqueiras em férias de 2011, relembro uma das mais desconcertantes record stores que visitei. Apesar de ser em tudo idêntica às nossas Carbono e Louie Louie, a Record Hunter tem a particularidade de procurar oferecer o que já é ignorado pelas editoras: discos descatalogados, edições especiais e limitadas, singles e EPs raros. Matéria que não deu para explorar como gostaria, mas que me proporcionou alguns discos bem interessantes e, há muito, desejados. O primeiro é o EP de estreia do colectivo Hope Sandoval & The Warm Inventions, i.e., a dupla composta por Hope Sandoval (Mazzy Star) e Colm O’Cloisig (My Bloody Valentine). «At The Doorway Again» data de 2000 e antecede a edição do álbum «Bavarian Fruit Bread» (2001). Sempre gostei muito dos Mazzy Star e da sua sonoridade. Folk shoegaze em cadência indie que encontra na voz de Hope Sandoval o elo necessário para o alheamento do corrupio do dia-a-dia. Ambientes explorados, também, pelos Beach House, se bem que numa perspectiva mais pop. Porém, o som melancólico/doce percorre as melodias de ambas as bandas. Componentes que encontramos neste curto, mas apetecível, «At The Doorway Again». Se «Around My Smile» e a lindíssima «Charlotte» já eram conhecidas (ambas as canções integraram o alinhamento final de «Bavarian Fruit Bread»), o aéreo «Sparkly» e a autêntica lullaby «Down The Steps» só vêm atirar ainda mais lenha para a fogueira. Fogo que arde desde a segunda metade dos anos 90, época em que descobri «Fade Into You» e os álbuns «She Hangs Brightly» (1990), «So Tonight That I Might See» (1993) e «Among My Swan» (1996).

Continuo na folk e com outra voz feminina. Conheci o projecto Russian Red, da madrilena Lourdes Hernández, em 2010, aquando de uma curta passagem pela capital espanhola. «I Love Your Glasses», o debut álbum editado em 2008, foi, desde então, consumido quase até à exaustão. Isto, ao ponto de canções como «No Past Land», «Cigarettes», «Gone, Play On», «Nice Thick Feathers» e uma tocante cover de «Girls Just Want To Have Fun» ainda por cá andarem. Por isso «Fuerteventura», o segundo capitulo Russian Red, foi chamamento ao qual não pude resistir. Lourdes Hernández, volta a encantar com canções cheias de sentimento e típicas do singer-songwriting. Elementos aos quais dificilmente resisto. Porém, este segundo tomo já não tem a força da estreia. Voltamos a encontrar excelentes composições, como são os casos de «Tarantino», «Braver Soldier», «Everyday Everynight», «A Hat» e «Nick Drake», a produção de Tony Doogan mostra-se numa mais-valia, mas o efeito surpresa já não lá está. O disco revela, ainda assim, novos caminhos para a música de Lourdes Hernández, os quais passam pela surf pop de «January 14th», o country norte-americano de «Fuerteventura», a melancolia Mazzy Star em «I Hate You But I Love You» e a pop mais cintilante de «The Sun The Trees». No fim ainda encontramos uma nova versão de «Cigarettes» (tema originalmente editado em «I Love Your Glasses»). Mais um excelente disco Russian Red que, vá lá saber-se porquê, continua a ser ignorado em Portugal.

Como não há duas sem três, continuo a deambular pelos caminhos da folk. Desta feita, a preferência recaiu sobre os norte-americanos Vetiver, projecto de Andy Cabic, e pela sequela do aplaudido disco de covers «Things Of The Past». «More Of The Past» é um EP de cinco temas editado pela Gnomonsong. Mais cinco canções que, de alguma forma, marcaram e inspiraram Andy Cabic e restantes elementos da banda. EP que segue as pisadas de «Things Of The Past», apresentando uma sonoridade retro e extremamente convincente. Um disco que poderia ter sido editado em finais da década de 60 e inícios de 70, mas que, na realidade, viu a luz do dia em 2008. Porém, a receita passa pela folk psicadélica de «See You Tonight» (The Wizards), pelo rockabilly gingão de «Hey Doll Baby» (The Everly Brothers), o country rock de «Before The Sun Goes Down» (tema tradicional), o alternative country de «Just To Have You» (Grin) e a cadência free folk de «Hills Of Isle Au Haut” (Gordon Bok). Pena a não inclusão de «Miles Apart», original dos A.R. Kane (alguém se lembra disto?) e o lado-b do single «Hey Doll Baby». EP obrigatório para os aficionados, como eu, da folk music, dos Vetiver e de «Things Of The Past».

Para terminar, escolhi uma das melhores bandas rock da actualidade. Patrick Carney e Dan Auerbach já andam por cá desde 2011, mas foi só com as edições de «Attack & Release» (2008) e, principalmente, «Brothers» (2010) que conseguiram alcançar esse estatuto. Dois álbuns obrigatórios para quem gosta de power rock blues gingão em cadência garage rock. Ora, se Berlim me apresentou «Thickfreakness» (2003), Estocolmo deu-me a possibilidade de completar a discografia dos The Black Keys, disponibilizando-me, a preço de amigo, o debut «The Big Come Up» (2002) e os EP «The Moan» (2004) e «Chulahoma: The Songs Of Junior Kimbrough» (2006). Mais uma missão cumprida, portanto. Jornada electric power blues que incorpora, também, pitadas de funk, soul e hard rock. «The Big Come Up» é uma verdadeira viagem ao passado e às raízes do blues rock. Música rude e visceral que está longe do easy listening, ou, se preferirem, da vertente mais pop de «Attack & Release» e «Brothers». O álbum também tem as suas pérolas pop, como são «I’ll Be Your Man», «Yearnin’», «Them Eyes», ou a surpreendente cover de «She Said, She Said» (original dos The Beatles), mas o melhor passa mesmo pelo acento rock n’ blues de «Busted», «Countdown», «Leavin’ Trunk» (tema tradicional), «The Breaks» e «Heavy Soul». Este último tema foi, posteriormente, regravado e incluído no EP «The Moan», disco fundamental para coleccionadores e seguidores mais acérrimos dos The Black Keys.
Trata-se de mais um bom trabalho rock n’ blues da banda de Akron, Ohio. Além da versão alternativa de «Heavy Soul», podemos encontrar o inédito «The Moan» e as covers «Have Love Will Travel» (original de Richard Berry, mas imagem de marca dos The Sonics, que já havia sido incluído em «Thickfreakness») e «No Fun» (The Stooges). Quanto a «Chulahoma», deparamo-nos com uns The Black Keys mais lânguidos e simultaneamente mais harmoniosos. Feito de seis originais de David “Junior” Kimbrough (1930-1998), provavelmente o guitarrista blues mais importante da segunda metade do séc. XX, «Chulahoma» é uma notável homenagem da dupla norte-americana ao seu importante legado. Isto, depois da banda norte-americana ter reinterpretado «Do The Rump» (cover incluída em «The Big Come Up») e «Everywhere I Go» (tema gravado para «Thickfreakness»). Porém, em nenhuma das ocasiões os The Black Keys alcançavam o psicadelismo sombrio que percorre «Chulahoma». As texturas não deixam de ser blues rock, mas as canções aqui ganham uma outra dimensão (ouçam-se, por exemplo,
«Meet Me In The City» e «Have Mercy On Me»). Desta forma, e uma vez que os The Black Keys não se limitam a interpretar as canções de Kimbrough, «Chulahoma» é uma inigualável homenagem à obra de David “Junior” Kimbrough. Seis impressionantes cover versions que não deixam de ser seis canções notáveis dos The Black Keys.


P.S.: A minha recente passagem por Estocolmo não se fez só de música e visitas turísticas. Além da muito interessante oferta musical, a qual já tive a oportunidade de apresentar, a capital sueca garante, também, excelentes propostas literárias. As lojas de livros são grandes e superam qualquer uma da nossa Lisboa. Por entre os muitos destaques da secção “língua inglesa”, decidi apostar em «Just Kids», o sincero e apaixonante depoimento de Patti Smith sobre a sua relação com Robert Mapplethorpe (1946-1989). Uma obra ambientada nas ruas de Nova Iorque que documenta, de uma forma impressionante, o difícil início de carreira de Smith e Mapplethorpe.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

2011 | Viagens à tasca em período de férias IX


Stockholm Stadshuset

Outra descoberta deste Verão de 2011 foi a banda sueca The Amplifetes. Quer dizer, já não foi bem uma descoberta, pois ainda antes de voar para Estocolmo tinha dado com o álbum de estreia do quarteto num dos sítios electrónicos “That-Must-Not-Be-Named”. Ora bem, a história dos The Amplifetes é muito idêntica à dos conterrâneos Miike Snow. Músicos, compositores e produtores que alcançaram o sucesso ao lado de nomes como Kelis, Britney Spears, Kylie Minogue e, claro, Madonna. Quatro elementos que começaram a trabalhar juntos em 2007, editando, em 2008, o primeiro single «It’s My Life». Canção que mistura uma atitude punk com ritmos garage electro pop e que imediatamente me transportou para «Version 2.0» dos saudosos Garbage. Seguiu-se, em 2009, «Whizz Kid» e os ecos de “Swedish Next Big Thing” adensavam-se. «Somebody New» foi o passo seguinte e, com ele, a banda entrou nas principais playlists de França, Alemanha, Suíça e Áustria. Ateado o rastilho, lançam «The Amplifetes», em Setembro de 2010, e «Blinded By The Moonlight» mereceu a edição em single. O disco reúne todos os singles da banda e outros dez temas que andam de mãos dadas com as texturas e atmosferas dos The Electric Light Orchestra, The Ramones, Elvis Costello, Daft Punk, Jean Michel Jarre e David Bowie. Não é nada de novo, é certo, mas podemos encontrar misturas bem engraçadas e temas muito dançáveis («When The Music Died», «Fokker» e «Maxine» são eventuais singles a explorar). No entanto, os Miike Snow mostram-se bem mais interessantes.

Banda, que também já não é nenhuma novidade para mim, são os The (International) Noise Conspiracy. Formaram-se em 1998, em Umeå, e logo deram que falar com a sua música de intervenção e matriz garage punk rock que não deixa ninguém indiferente. Estridência q.b. que dividiu opiniões. Quanto a mim, há algo de glamoroso e excessivo que me atrai desde «A New Morning, Changing Weather» (2001). Música com carácter e cheia de estilo, portanto. Ora, como os discos em Estocolmo são bem mais baratos que em Lisboa (“Live and Learn…”), aproveitei as secções em saldo para adquirir duas das rodelas que me andavam a faltar. O álbum «Survival Sickness» (2000) e o EP «Bigger Cages, Longer Chains» (2002). Trabalhos que antecederam e sucederam, respectivamente, ao boom em torno dos suecos, com a edição de «A New Morning, Changing Weather» e dos seus fortíssimos singles «Up For Sale» e «Capitalism Stole My Virginity». Canções que se posicionaram lado a lado com «Smash It Up» e «The Reproduction Of Death», os singles de «Survival Sickness». Um disco rude e directo que acaba por ser mais consistente que o seu sucessor. Corporação punk entretida com o garage rock de 60, o punk de 70 e os trabalhos dos The Kinks e dos The Who. Relativamente ao EP «Bigger Cages, Longer Chains», tema título originalmente editado em «A New Morning, Changing Weather», os seus cerca de vinte e três minutos mostram que os
The (International) Noise Conspiracy não se encerram na sonoridade garage punk rock. Para o efeito, encontramos a faceta mais funk e mais groovy da banda com «Bigger Cages, Longer Chains», uma curiosa e psicadélica cover de «Babby Doll», original dos N*E*R*D, e o excelente «When Words Are Not Working».

Para terminar esta viagem pela música sueca, volto a chamar Robyn. :) 2010 foi um grande ano para a cantora. Em pouco mais de cinco meses lançou a trilogia «Body Talk» e depois ainda teve tempo para compilar as melhores canções dos três mini-álbums num único disco. «Body Talk» é um verdadeiro best of da colheita de 2010. Um trabalho que reúne a melhor nata do tríptico «Body Talk», acabando por excluir do seu alinhamento as versões acústicas de «Indestructible» e «Hang With Me» e os temas mais experimentais e consequentemente mais fáceis de rotular como lados-b («Cry When You Get Older», «Jag Vet En Dejlig Rosa», «Include Me Out» e «Criminal Intent»). Porém, a história deste capítulo final faz-se com as excelentes músicas que o compõem. Canções não aconselháveis a hiperglicémicos que representam alguns dos melhores momentos pop de 2010. Um disco que combina da melhor forma a pop contemporânea com a música mais dançável e disco. Ecos da década de 80 que caem sempre bem. Synthpop entusiástica e pessoal que fazem de «Body Talk» um dos álbuns mais inspirados e, igualmente, mais ouvidos nos últimos tempos.

terça-feira, 13 de setembro de 2011

2011 | Viagens à tasca em período de férias VIII


Stockholm

De regresso a Estocolmo e à música sueca para apresentar a grande sensação pop do Verão de 2011 na Suécia. A história discográfica de Veronica Maggio começa em 2006, com a edição dos singles «Dumpa Mig» e «Nöjd?», e do respectivo debut álbum «Vatten & Bröd». Em 2007 é distinguida com o prémio revelação Grammisgalan e 2008 é o ano de mais um álbum com «Och Vinnaren Är…». Com os singles «Stopp», «17 År» e, principalmente, «Måndagsbarn» alcança algum sucesso, também na Noruega e na Dinamarca. A receita é simples: música pop contemporânea com um leve tempero soul e, aqui e ali, alguma produção vintage. Mais uma concorrente no campeonato soul pop female singer-songwriters. No entanto, «Stan I Gatan» é pop, pop e ainda mais pop. Não consegue fazer frente aos excessos synthpop da conterrânea Robyn, mas mostra-nos mais um excelente exemplo de como a pop bem pensada pode desbravar terreno e alcançar o respeito de outros territórios. O soberbo «Jag Kommer», single que marcou presença em todas as tascas visitadas em Estocolmo, é fresco e energético como a Coca-Cola. Já «Välkommen In» será o tema de ligação às apostas iniciais de Veronica Maggio. Ainda assim, descortinamos uma elevada carga emocional em «Satan I Gatan». «Mitt Hjärta Blöder», «Inga Kläder» e «Snälla Bli Min» têm os sentimentos à flor da pele e possuem um forte cunho pessoal. Tenho pena de não entender quase nada de sueco, mas tanto «Satan I Gatan» como «Det Vackra Livet» já mereciam um curso em período pós-laboral.

Outro item com grande destaque nas lojas de Estocolmo era «Wilderness», o mais recente disco dos The Horror The Horror (THTH). Grupo formado em 2005, na província de Södermanland, e identificado na recomendável Bengans Record Store como a melhor banda indie da Suécia. Apesar de não me deixar levar por epítetos e coisas que tais, o meu interesse foi instantâneo, mas o efeito não foi tão imediato. A música dos THTH é fortemente influenciada pelo rock de finais de 60 e inícios de 70, mas também pela pop que fez história nos anos 80, pela mão dos Prefab Sprout. Componentes fortíssimos que, no entanto, integram uma mistura feita com as texturas de uns The Futureheads e/ou Maxïmo Park e a indie-pop sem sabor de uns Razorlight. Encontrei bons temas, é verdade, como são exemplo «Honestly», «Submission», «Vanity» e «Out Of Here», mas é muito pouco para a so-called “melhor banda indie da Suécia”. Já pensei se «Wilderness» não será um passo em falso na carreira dos THTH. Contudo, a vontade de explorar os dois primeiros álbuns destes The Horror The Horror não é muito forte.

domingo, 4 de setembro de 2011

2011 | Viagens à tasca em período de férias VII

Próximo destino: Estocolmo. Despeço-me das straβen berlinenses e atiro-me às gator da capital da Suécia. A oferta discográfica local despertou o meu interesse e, acima de tudo, saciou a minha sede de pop. Ora, se em Berlim foram as propostas internacionais a brilharem, em Estocolmo a minha atenção recaiu preferencialmente pelas ofertas locais. Não é novidade que a Suécia continua a produzir alguma da música mais apetecível da actualidade.


Stockholm

A primeira proposta-surpresa chegou de Gotemburgo, dos irmãos Philip e Henrik Ekström, dos The Mary Onettes. O duo Det Vackra Livet, ou se preferirem La Dolce Vita em sueco, formou-se em 2010 e o seu debut álbum homónimo era um dos grandes destaques nas lojas de discos. Synth pop resgatada aos The Cure, sem nunca esquecer os contributos de New Order e Echo & The Bunnymen. Portanto, cadência retro e excelentes melodias pop condimentadas pelo rock de 80. Foi assim que me apresentaram «Det Vackra Livet», na excelente loja de discos Pet Sounds, e bastou-me ouvir «Viljan», o single de apresentação, para me convencerem. Ritmos e riffs new wave que os irmão Ekström já exploraram nos The Mary Onettes. No entanto, as canções destes Det Vackra Livet, além de cantadas em sueco, são mais uplifting. «Det Vackra Livet» foi inspirado nas memórias das avós de Philip e Henrik e em obras literárias do psiquiatra, poeta e político Claes Andersson e é um disco radioso. Canções emotivas e melodias retiradas do baú dos Ekström. Temas nocturnos, mas, igualmente celebrativos. «Kristallen», «Barn Av En Istid», «Genom Sprickorna», «Askan», «Skammen» e, claro, «Viljan» conquistaram-me, animando e de que maneira a minha primeira passagem por Estocolmo.

Continuo na Pet Sounds, mas agora ao som de El Perro Del Mar, o projecto pessoal de Sarah Assbring, também originário da cidade de Gotemburgo. El Perro Del Mar é uma das muitas boas propostas Made in Sweden que teimam em não conseguir o seu espaço em Portugal. Não é fácil encontrarmos por cá os discos do projecto e quando acontece os preços são proibitivos. Por isso, aproveitei a estadia para comprar dois dos seus trabalhos: «Look! It’s El Perro Del Mar!» (2005) e «Love Is Not Pop» (2009). Se o primeiro reúne os vários singles e EP que marcaram o início de carreira de Sarah Assbring na editora Hybris, «Love Is Not Pop» é já o último trabalho conhecido do projecto, este editado pela independente Licking Fingers. No entanto, e apesar das melodias etéreas e das heartbreaking stories de Sarah Assbring percorrerem ambos os discos, cada um dos trabalhos apresenta a sua própria identidade. Enquanto «Look! It’s El Perro Del Mar!» exibe uma melancolia nórdica num registo despido e até mesmo descontraído, «Love Is Not Pop» mostra-nos uma fase já mais madura da composição de Sarah Assbring.
Etapas que se complementam, pois tanto morro de amores pelo childish lo-fi melódico de «This Loneliness», «Party», «Sad» e «Dog» como pelo requinte de «L Is For Love» e «Change Of Heart». Lá pelo meio ainda encontramos duas covers: «Here Comes That Feeling» (Brenda Lee) e «Heavenly Arms» (Lou Reed).

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

2011 | Viagens à tasca em período de férias VI

Sempre que percorro as tascas de um outro país, um dos principais objectivos é conhecer alguma da cultura local. Este ano os escaparates destacavam Wir Sind Helden e Beatsteaks, mas as sugestões passaram pelos Tocotronic, Einstürzende Neubauten, Kettcar e Element Of Crime. Excluídos os Einstürzende Neubauten, já que a ideia seria descobrir novidades, e depois de uma rápida espreitadela aos chatinhos Element Of Crime e aos interessantes Kettcar (pena só estar disponível um disco ao vivo), apostei nos Tocotronic. No entanto, a derradeira passagem por Berlim começa com um disco que já ia “encomendado”.

East Side Gallery

Pantha Du Prince, projecto do alemão Hendrik Weber, é um sucesso nas minhas viagens de automóvel. Música feita de imagens. Paisagens planas. Ambientes serenos. Ritmos negros. Cadência techno. Sentimentos. Elementos que parecem dispares, mas que Pantha Du Prince trabalha como ninguém. «Diamond Daze», o debut álbum do projecto que ainda não teve edição internacional, data de 2004, e regista o período em que Hendrik Weber semeia as texturas hipnóticas e ambiências mecânicas que mais tarde resultaram em «This Bliss» (2007). Canções construídas em laboratório e que têm alimentado o culto em torno de Pantha Du Prince. Apesar de este ser um campeonato diferente para mim, o certo é que há algo na música de Pantha Du Prince que me fascina. «Eisregen» e «St. Denis Bei Licht», por exemplo, são canções fantásticas. Momentos techno que abrem com ritmos hipnóticos e aos quais Hendrik Weber lhe vai adicionando novos e importantes elementos que parecem retirados do imaginário Angelo Badalamenti/David Lynch. No entanto, nem sempre essa técnica acumuladora dá bons frutos. «Circle Glider», por exemplo, perde-se nos vários caminhos que pretende explorar e «Satin Drone» simplesmente não resulta melodicamente. Ainda assim, o disco é bem recomendável. Não estivéssemos perante um dos melhores produtores e “remisturadores” da actualidade.

Passamos então aos Tocotronic. Banda de Hamburgo que aparece pela segunda vez neste espaço. Já em 2007, aquando da minha viagem pela Suiça, tinha apostado nos Tocotronic e no seu rock com tempero indie de finais dos anos 80 e inícios de 90. Na altura o disco em destaque era «Kapitulation», sendo que agora a proposta recaiu sobre «Schall & Wahn». Álbum de 2010 que alcançou o nº 1 do top germânico, o primeiro da banda. A toada indie rock mantém-se, mas agora são as melodias The National e a energia The Walkmen que mais encantam («Eure Liebe Tötet Mich» e «Schall Und Wahn» são excelentes). Percebemos que os Tocotronic são músicos atentos e que conseguem facilmente assimilar novas ideias e influências. No entanto, continuamos a encontrar a electricidade dos R.E.M. de 80 («Bitte Oszillieren Sie»), a aspereza dos Sonic YouthEin Leiser Hauch Von Terror») e as estruturas PavementMacht Es Nicht Selbst»). Descortinamos, ainda, uma melancólica e recomendável secção de cordas em «Das Blut Na Meinen Händen» e «Im Zweifel Für Den Zweifel», a faceta mais punk dos Tocotronic em «Stürmt Das Schloss» e o momento mais etéreo em «Gift». Um excelente disco totalmente cantado em alemão.

Para fechar esta minha primeira passagem por Berlim apresento um dos discos que marcou presença em todas as tascas por lá visitadas. Lucy Wainwright Roche é filha dos músicos Loudon Wainwright III e Suzzy Roche e meia irmã de Rufus e Martha Wainwright. O passado de Lucy Roche passa por Nova Iorque, cidade onde nasceu, completou o liceu e o mestrado em Educação, mas também pelo Ohio e a sua formação académica em escrita criativa. Além do brilhante percurso escolar, sempre que podia, Lucy acompanhava Rufus Wainwright nas suas várias digressões como backup vocal. Verificamos que a música sempre fez parte do background de Lucy Wainwright Roche. Devido à sua história e família, a estreia em disco lá foi causando algum burburinho. No entanto, «Lucy» foi mesmo a maior desilusão deste Verão de 2011. O disco já é de 2010, mas a música parece amarrada à folk dos anos 60. Atenção, não tenho nada contra a folk e à “message music” ligeira que marcaram a década de 60. Porém, as canções de Lucy Wainwright Roche apresentam-se desprovidas de sentimento. É evidente a qualidade musical e melódica, mas falta o essencial: a profundidade emocional. A paixão do singing-songwritting e pela canção. Desta forma, e neste território musical, mais vale aguardar pelo novo trabalho de Rosie Thomas.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

2011 | Viagens à tasca em período de férias V


Brandenburger Tor

Uma das bandas que até há bem pouco tempo passava completamente despercebida nas tascas de Lisboa são os norte-americanos The Black Keys. O duo, composto por Dan Auerbach (guitarra e voz) e Patrick Carbey (bateria e produção), fez os seus primeiros ensaios em Akron, Ohio, decorria o ano de 2001. Em 2002, editam o álbum de estreia «The Big Come Up» e as comparações com os The White Stripes são inevitáveis. Electric power blues com tempero garage rock que muito deu que falar na passagem dos anos 90 para os anos 00. Uma guitarra, uma bateria e uma voz poderosa e visceral. Género que não pegou em Portugal, mas que eu sempre acompanhei com os citados The White Stripes e, numa variante mais pop, com os The Strokes, The Kills e Yeah Yeah Yeahs. Os The Black Keys são uma descoberta relativamente recente. Se no ano passado Madrid me proporcionou «Attack & Release» e «Brothers», este ano Berlim ofereceu-me «Thickfreakness» (2003). Trabalho gravado e produzido pela própria banda em cerca de catorze horas. Um disco composto por onze canções urgentes e de textura blues-rock. Tudo apresentado de uma forma rude, mas extremamente eficaz. «Thickfreakness», «Hard Row», «Set You Free» e «Have Love Will Travel» são excelentes canções, dignas de figurarem num qualquer best of da dupla. Já «Hurt Like Mine» e «If You See Me» expõem a faceta mais controlada e, consequentemente, menos excitante dos The Black Keys. No entanto, o que impressiona é o facto de dois músicos com pouco mais de vinte anos (recorde-se que «Thickfreakness» foi editado em 2003) conseguirem escrever e produzir música tão “crescida”. Canções calejadas que encontram em Dan Auerbach o seu narrador de eleição.

A par dos The Black Keys, os norte-americanos Death Cab For Cutie (DCFC) também não têm a vida facilitada por cá. Os discos da banda de Bellingham, Washington, são difíceis de encontrar. A procura de Berlim reservou-me a edição limitada e comemorativa dos dez anos de «Something About Airplanes» (1998). Uma década de pop seminal e tempero lo-fi de «Bend To Squares», «Champagne From A Paper Cup» e «Line Of Best Fit». Canções que misturam a pop beatlish de Elliott Smith e Ben Folds, com arranjos John Vanderslice. Ambientes explorados pelos Built To Spill, The Shins e Rogue Wave, mas com a carga emocional de uns Red House Painters («Your Bruise») e Mazzy Star («Sleep Spent»). A receita saiu-se bem em 1998 e o percurso da banda de Ben Gibbard (The Postal Service e ¡All-Time Quarterback!) é hoje um dos casos de maior sucesso indie norte-americano. Aproveitando a boleia do êxito alcançado, principalmente, com «Transatlanticism» (2003), «Plans» (2005) e «Narrow Stairs» (2008), os DCFC lá se decidiram a reeditar «Something About Airplanes». A ideia seria mostrar aos novos fãs as canções que deram início à viagem da banda. Para o efeito juntaram-lhe um segundo CD com a primeira actuação dos DCFC em Seattle, no Crocodile Cafe, a 25 de Fevereiro de 1998. Uma verdadeira relíquia para quem estima a música dos DCFC.

Outra banda com dificuldades de colocar os seus trabalhos nas tascas de Lisboa são os Okkervil River. A minha relação com o colectivo de Austin, Texas, nasceu em 2007 com a edição do soberbo «The Stage Names». Em Berlim encontrei «Down the River of Golden Dreams» (2003) e «I Am Very Far» (2011), o segundo e sexto álbuns dos norte-americanos. Folk rock com cadência retro que pisca o olho à pop, sem perder a personalidade indie. Modelo cultivado pelos Neutral Milk Hotel, mas acompanhado de perto pelo lirismo de um Conor Oberst (Bright Eyes) e Stephin Merritt (The Magnetic Fields). Storytelling de primeira linha, portanto, que domina o extraordinário «Down the River of Golden Dreams». Dados aos quais Will Sheff e companhia acrescentam, no mais recente «I Am Very Far», pitadas de Bruce SpringsteenRider»), Mercury RevWe Need A Myth») e Arcade FireWhite Shadow Waltz»).
Empenham-se na cadência waltz de «Wake And Be Fine» e mostram que a pop pode ser um lugar comum para todas as suas influências («Piratess»). Músicas triunfantes, às quais adiciono «The Valley», «Hanging From A Hit», «Show Yourself» e «Your Past Life As A Blast», que constroem um álbum, igualmente, glorioso. Mais um dos Okkervil River.

Quem também não faz nada ao acaso são os …And You Will Know Us By The Trail Of Dead (só o nome já os denunciam), banda oriunda, também, de Austin, no Texas. Formaram-se em 1993 e até à data já nos ofereceram dois dos melhores álbuns dos últimos doze anos: «Madonna» (1999) e «Source Tags & Codes» (2002). Ainda assim, a carreira dos …AYWKUBTTOD tem-se pautado pela irregularidade: «Worlds Apart» e «So Devided» são verdadeiros tiros ao lado. A apetência da banda para o prog-rock épico com tempero post-punk estava lá, mas o todo simplesmente não resultava. «Tao Of The Dead» é já o sétimo álbum dos norte-americanos e o trabalho mais forte desde o seminal «Source Tags & Codes». Na verdade, «Tao Of The Dead» recupera toda a pujança e esplendor da obra-prima dos …AYWKUBTTOD (os trechos «Fall Of The Empire» e «Summer Of All Dead Souls» são soberbos). Tudo muito bem ordenado, aqui, numa edição dupla e limitada. Se no primeiro CD encontramos as duas faixas do disco - «Tao Of The Dead» (35:50) e «Strange News From Another Planet» (16:32) -, no CD dois podemos ouvir as «stand alone versions» dos onze temas que compõem os quase trinta e seis minutos de «Tao Of The Dead», a faixa título, e mais meia hora de música com «The Bubble Demo» (as versões demo). Uma preciosidade que vem acompanhada de dezasseis páginas da ‘comic’ «Strange News From Another Planet – The Voyages Of The Festival Theme» e da respectiva «short story» da autoria do vocalista e guitarrista Conrad Keely.